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O homeschooling, ou educação domiciliar, em português, trata-se de uma modalidade educacional realizada em casa, e não em uma instituição de ensino. A proposta, embora muito popular em outros países, ainda é um tema que gera controvérsias na população brasileira. Segundo pesquisa feita pelo Cesop-Unicamp sob a coordenação do Cenpec, cerca de 78,5% dos brasileiros discordam de pais possuírem o direito de tirar os filhos da escola para ensiná-los em casa - 62,5% totalmente, e 16% em parte. 

Por outro lado, segundo o Ministério da Educação (MEC), 35 mil famílias praticam o homeschooling no Brasil. A prática ainda é considerada ilegal no País por não haver uma legislação que o regule, no entanto, o ensino domiciliar é o principal projeto para a área da educação encabeçado pelo governo, que quer regulamentá-lo o quanto antes, tornando-o uma opção respaldada por lei.

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Opiniões

Para a jornalista Priscilla Lima, pesquisadora sobre o assunto, os motivos para os pais adotarem o ensino domiciliar são inúmeros. “Crianças com dificuldades de aprendizagem ou que sofrem com bullying ou violência. Pais que se mudaram para locais distantes de grandes centros, onde o acesso a escolas é mais difícil ou mesmo que consideram que há defasagens estruturais no modelo de ensino ou que não concordam com a ideologia ensinada em sala de aula”, reflete, segundo informações divulgadas pela assessoria de imprensa.

De acordo com a pesquisadora científica do conhecimento e PHD em psicanálise, Carla Dendasck, o mundo está passando por uma fase social complicada em que está cada vez mais difícil o respeito às diferenças de realidades das famílias e que isso é necessário para se discutir o homeschooling sem ideologias pré concebidas. 

“Muitos pais alegam que o sistema escolar atual está longe de valorizar as aptidões individuais de cada criança e se questionam como ajudá-las a desenvolver o máximo potencial. Se um jovem tem notadamente habilidades artísticas, que não estão relacionadas ao conteúdo curricular de matemática, ou se uma criança é um matemático e não tem interesse por literatura, eles deveriam aproveitar o tempo aprimorando o dom que já possuem em vez de aprender disciplinas para as quais não tem aptidão. Sem contar a baixa qualidade das escolas e a falta de preparo de muitos professores”, pondera Dendasck, em nota.

Para a especialista, também é importante considerar que hoje muitas faculdades já não exigem mais o conteúdo de vestibular antigo, inclusive valorizam outras habilidades como a capacidade de redigir uma boa redação ou selecionam candidatos que tiveram boas notas no Enem, por exemplo. “Contudo, as universidades federais ainda praticam o vestibular antigo, de nível superior restrito. Então, se o objetivo é que o jovem faça uma universidade federal, aí ele terá um vestibular mais tradicional e os pais têm que pensar nisso”, ressalta. 

Sobre a diferença entre homeschooling e Ensino à Distância (EAD), Carla explica que o EAD é ministrado por professores e cabe aos pais o acompanhamento para verificar se o filho está estudando ou não. Já no homeschooling, os pais podem usar plataformas e até mesmo escolas que oferecem Ensino à Distância (EAD), mas não é uma exigência e sim, podem escolher quais metodologias vão usar para o ensino dos filhos, dentro dos parâmetros exigidos da educação. 

Aos pais que gostam da ideia do ensino domiciliar, mas tem dúvidas se o método pode funcionar na prática, Dendasck sugere que uma alternativa é testar em um momento de férias escolares. “É interessante entrar em uma plataforma, procurar opções, testar dicas e técnicas de outros pais de homeschoolers, tanto para ver se a criança teria condições de aprender quanto se os próprios pais dariam conta de fazer esse acompanhamento. Porque educar é complicado. Então é muito importante verificar os prós e contras de cada realidade familiar”, diz. 

Lima comenta que assim como a temática do homeschooling ganhou evidência na pandemia, outras questões sobre educação dos filhos e desafios da parentalidade vieram à tona. Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), de junho de 2020 a junho de 2021, com 7 mil crianças e adolescentes de todo o país, mostrou que um em cada quatro apresentou ansiedade e depressão durante a pandemia com níveis clínicos. E, segundo os especialistas, uma relação familiar saudável ajuda a proteger contra o desenvolvimento desses transtornos.

Suellen e Lucas Alencar optaram pelo ensino domiciliar há cinco anos. Foto: cortesia

Desde 2017, Suellen Alencar, de 29 anos, é responsável pela educação dos filhos. Mãe de quatro crianças, a mais velha tem 6 anos e o caçula está com um mês, ela vê no homeschooling, ou ensino domiciliar, um meio de proporcionar educação individualizada e abordar conteúdos que ultrapassam os muros da escola.

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“Temos a oportunidade de ensinar [com o homeschooling] não apenas com lápis e papel, mas com a vida cotidiana. Executar uma receita de bolo pode ser uma aula. Além de nos divertimos, podemos aprender também sobre matemática por exemplo. Além disso, o homeschooling proporciona um tempo mais presente na vida dos nossos filhos, que para nós é de grande valor”, explica ao LeiaJá.

À reportagem, Suellen, que é do lar e tem formação superior em administração, conta que as crianças possuem uma rotina desde o acordar ao dormir. As aulas domiciliares são no turno da manhã e duram entre 1h30 e 2 horas de estudos. Já as tardes são dedicadas a passeios ao ar livre. Todo o planejamento das atividades educacionais é realizado pela própria Suellen.

“Todo fim do ano verifico a grade curricular da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que é a grade usada pelas escolas e também o currículo de educação clássica, que se encontra no livro ‘A mente bem treinada’. A construção é feita levando os dois em consideração. Pode parecer muito trabalho, mas faço com muito prazer!”, ressalta.

Suellen Alencar com os quatro filhos. Foto: cortesia

Nenhum dos filhos chegou a frequentar a escola e Suellen garante que ela e o marido, Lucas Alencar, de 31 anos, nunca foram alvos de críticas por parte da família ou amigos por isso. “Nunca sofremos nenhuma crítica a respeito por pessoas que nos conhecem e convivem conosco, muito pelo contrário, a maioria das pessoas ficam curiosas e encantadas ao ver como educamos nossos filhos”, conta.

Mas pondera: “Claro, que para quem não nos conhece, tem sempre os questionamentos. Lidamos com calma, entendendo que muitas dessas críticas são porque essas pessoas nunca conheceram uma família educadora e normalmente o desconhecido causa estranheza”. Outro fato que a dona de casa assegura é sobre a questão da interação e socialização não ser comprometida pela ausência no ambiente escolar.

“A socialização não é formada apenas pela escola, tendo em vista que a mesma surgiu há menos de 500 anos (...) entendemos a socialização como algo importante para o desenvolvimento dos nossos filhos e proporcionamos esses momentos, seja com encontros com outras famílias educadoras, atividades extracurriculares (natação, futsal, por exemplo), passeios diários ao parque, quando visitamos os avós, os primos. Quando não diminuímos a socialização de uma criança a quatro paredes de uma sala de aula, entendemos então que tudo pode ser uma oportunidade”, argumenta.

Nova rotina

Há quatro meses, Hannah, de 11 anos, trocou a escola tradicional pelo homeschooling. A escolha dos pais Everton Antônio da Silva e Adriana de Jesus Rocha pela educação domiciliar foi bem aceita pela menina, caso contrário, de acordo com Everton, ela continuaria a frequentar o colégio.

“A Hannah opina. Se ela falasse que queria continuar na escola, ela continuaria. Nós mostramos a ela, porque, a meu ver, o mais importante da escola é o ensino de base, alfabetização, a escola contribui mais é nessa parte. Depois dessa parte, formação da personalidade, do caráter, questão de gosto, ideologia, conhecimento, eu acredito que seja no seio familiar”, frisa Everton.

Hannah (no centro) começou no ensino domiciliar em fevereiro deste ano. Foto: cortesia

Ele afirma que a nova dinâmica de ensino não causou estranhamento e não precisou de grandes adaptações. Até o final de 2021, Hannah frequentava a escola tradicional, mas de forma remota devido à pandemia da Covid-19 no Brasil. “Ela dá continuidade aos estudos, só que em casa. Ela está na 6ª série. Então, a gente usa o material que seria usado na escola, a mesma coisa. Realizamos o acompanhamento, consultamos um site para aplicarmos as matérias, tem um professor nele. No final, lembra uma escola on-line", observa.

Homeschooling: que educação é essa?

Em entrevista ao LeiaJá, Rafaela Celestino, professora do Departamento Fundamento Sócio-filosófico do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutora em Educação, explicou que o homeschooling ou educação domiciliar surgiu na década de 1960 por meio do professor norte-americano John Hack, da Universidade de Harvard. De forma geral, a prática "defende, basicamente, a desescolarização e o direito a um ensino em casa", explicou.

À reportagem, a docente aponta que o ensino doméstico se difere do oferecido em instituições de ensino regular em vários aspectos. "Ele [ensino domiciliar] não tem a sistematização regular dos conteúdos, não precisa de um profissional habilitado para tal função, tendo em vista que são os pais que vão ter o direito de educar em casa os seus filhos" pontua. 

 Rafaela Celestino salienta que a prática vai de encontro ao que prevê o artigo 59, da Contituição Federal. O texto defende a obrigatoriedade da oferta de Educação Básica e gratuita para todo e qualquer cidadão. Além disso, ela reforça as lutas pela ampliação do acesso à Educação. "A gente pensa no histórico da Educação brasileira, a gente vê que já foi uma luta ampliar a educação escolar para a maioria. Então, [o homeschooling] soa como uma espécie de retrocesso", diz.

E complementa: "Embora o argumento do custo-benefício seja muito maior em relação à escola regular, o espaço formal de ensino, a gente sabe que quem tem estrutura para oferecer esse tipo de educação é a elite. Não é todo brasileiro. Na realidade brasileira, as crianças ainda vão para a escola até para ter direito a uma merenda".

Regulamentação 

No dia 18 de maio, a Câmara dos Deputados aprovou o texto-base que regulariza a prática de homeschooling. A proposta, que será encaminhada ao Senado Federal, determina que as atividades pedagógicas sejam periodicamente registradas pelos pais ou responsáveis. Os estudantes, pelo texto da proposta, devem estar matriculados em instituição de ensino credenciadas, que devem acompanhar a frequência nas atividades. O texto também ressalta que os alunos serão avaliados, anualmente, pelo Ministério da Educação (MEC) sobre conteúdos apontados na BNCC. 

Para Suellen Alencar a regulamentação da prática assegura o direito a família se responsabilizar pela educação dos filhos. "A regulamentação representa apenas uma segurança para as famílias que praticam homeschooling poder continuar executando esse trabalho livremente. Acredito que o homeschooling não é para todos os pais, e a escola é muito bem vinda como esse apoio. Promover a regularidade pode dar segurança a aqueles pais que por muito tempo desejam praticar o homeschooling, e não o fazem pelo medo", expõe. 

Everton da Silva classifica a possível regulamentação como uma vitória para as novas gerações e deve despertar a atenção de mais pessoas para a prática. "A modalidade fora do Brasil já é uma realidade. Eu acredito que é uma conquista muito importante e as pessoas vão poder se aprofundar na questão, analisar melhor". 

Já a professora da UFPE argumenta que a regulamentação traz desvantagens. "Vai faltar aquele espaço que é primordial para as crianças, que é o espaço de socialização, as dinâmicas e as interações. Ela [escola] é um espaço de preparação para o mundo público, ela nem é a casa da criança nem o espaço propriamente público. A escola reflete as relações sociais e ela é um espaço social importantíssimo", expõe.

A Câmara aprovou nesta quarta-feira (18) o texto-base do projeto de lei que regulamenta o homeschooling. Foram 264 votos a favor, 144 contrários e duas abstenções. Promessa de campanha do presidente Jair Bolsonaro (PL), a educação domiciliar encontra eco em eleitores conservadores, que criticam o ensino nas escolas. Os partidos de esquerda, contrários à proposta, não conseguiram barrar a aprovação. Antes de enviar o texto para o Senado, os deputados vão analisar os destaques - sugestões de mudança - nesta quinta-feira, 19.

A proposta determina que as atividades pedagógicas sejam periodicamente registradas pelos pais e responsáveis. Os estudantes, pelo texto da proposta, devem estar matriculados em instituição de ensino credenciadas, que devem acompanhar a frequência nas atividades. Além disso, os alunos seriam avaliados anualmente pelo Ministério da Educação sobre conteúdos da Base Nacional Comum Curricular.

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Parlamentares contrários ao projeto alegaram que o homeschooling fragiliza a proteção de crianças, pois na avaliação deles, se tornaria mais difícil, por exemplo, protegê-las de abusos sexuais ou de exploração do trabalho infantil. "É nas escolas que muitas vezes é possível identificar abusos", disse a líder do PSOL, deputada Sâmia Bomfim (SP). A oposição também acusou o governo de criar "cortina de fumaça", ou seja, uma distração com a pauta ideológica, em meio à alta da inflação e do preço dos combustíveis.

Para o deputado Tiago Mitraud (MG), líder do Novo, contudo, o projeto chancela o "direito de liberdade" previsto na Constituição e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. "Se têm famílias com condições de adotar isso, e vão ter regras para o homeschooling, não vamos ser nós que vamos votar contra", afirmou.

Líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR) também defendeu o projeto. "Hoje isso está criminalizado no País. Uma família, de pessoas que trabalham no circo, de pessoas que têm uma vida nômade, recebe a visita do Conselho Tutelar, recebe a visita da polícia, para que os seus filhos vão para a escola. Mas eles não têm como fazer isso. E têm outras famílias que querem se dedicar à educação dos seus filhos e o fazem com muita presteza", disse.

Os partidos de esquerda, como PT, PSOL, PCdoB e PSB, foram os únicos contrários à aprovação do homeschooling. A promessa de campanha de Bolsonaro recebeu o apoio do Centrão - PP, PL e Republicanos - e de siglas como PSDB, União Brasil, PSD, Cidadania e Solidariedade.

Por maioria de votos, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) aprovou, na quarta-feira (27), um projeto que regulamenta o ensino domiciliar no Estado, conhecido como "homeschooling". A matéria foi aprovada em dois turnos: no primeiro, recebeu 25 votos a favor, de um total 40; e 21 no segundo, número mínimo necessário para ser aprovada no plenário.

A aprovação do projeto foi acompanhada por vários pais que defendiam a proposta. O texto agora segue para sanção ou veto do governador de Santa Catarina, Carlos Moisés (sem partido), que tem prazo de 15 dias para publicar a decisão. Na manhã desta quinta-feira (28), a vice-governadora do Estado, Daniela Reinehr (sem partido), comemorou a votação. "Vitória! Aprovado o homeschooling em Santa Catarina. Parabéns aos parlamentares que ouviram o anseio dos catarinenses", publicou, no Twitter.

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O Projeto de Lei Complementar (PLC) 3/2019 é de autoria do deputado Bruno Souza (Novo). Em junho deste ano, a matéria foi reprovada pela Comissão de Educação da Alesc. No entanto, ela voltou a ser discutida após passar pela Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.

O texto recebeu emenda substitutiva global que, entre outras mudanças, com o objetivo de aprimorar a proteção aos educandos, determina a garantia de tutela do Estado, a conceituação de aptidão técnica e a proibição do ensino domiciliar aos pais com medidas protetivas. No final da votação, o deputado Ivan Naatz (PL), que assegurou voto favorável, manifestou preocupação com a possibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF) de cassar a aprovação da lei.

O Governo do Paraná instituiu, nessa segunda-feira (4), o Projeto de Lei Ordinária (PLO) que permite a educação domiciliar, conhecida como ‘homeschooling’, de crianças e adolescentes em idade escolar para os ensinos fundamental e médio. O projeto foi sancionado pelo governador Ratinho Junior (PSD), mas ainda passará por regulamentação para que a lei seja posta em prática.

De acordo com o documento, os pais ou responsáveis pelos estudantes poderão escolher o tipo de ensino que eles receberão, “observadas a articulação, supervisão e avaliação periódica da aprendizagem pelos órgãos próprios dos sistemas de ensino”. O texto ainda prevê que os alunos serão avaliados pelos órgãos competentes, conforme os termos da Lei de Diretrizes e Bases (LDB).

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Para formalizar a escolha, os pais ou responsáveis deverão informar às instituições de ensino do Estado, por meio da Secretaria Estadual de Educação (SEED), pelo preenchimento de formulário específico. Segundo a justificativa presente no texto, o ensino domiciliar tem aumentado nos últimos anos.

Conforme pesquisas da Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED), a taxa de estudantes migrando para o formato ‘homeschooling’ cresce em torno de 55% ao ano. O texto ainda aponta dados de aumento da modalidade de ensino em outros países.

Na última semana, o estado de São Paulo, por meio do Conselho Estadual de Educação, criou novas regras para a prática de educação domiciliar, também conhecida como  homeschooling. Em caso de aprovação pela Câmara dos Deputados, os estudantes que recebem aula em casa, por meio da família, vão precisar de matrícula na rede estadual ou municipal, passar por avaliações na escola com frequência e ter aula com um profissional da educação.

Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que o homeschooling não é uma prática condizente com a constituição e que precisaria de regulamentação no Legislativo. Mesmo com a orientação, mais de 11 mil famílias se responsabilizaram pela educação de crianças e adolescentes, sem interferência do sistema de ensino público ou privado, de acordo com dados da Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned).

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O projeto de lei 3179/12, que autoriza a educação domiciliar, estava parado desde 2019. O governo federal pressiona a Câmara para que a aprovação seja feita ainda neste semestre. Em resposta, o Conselho Estadual de Educação de São Paulo estipulou as restrições, caso entre em vigor.

Já na Câmara, a deputada Luísa Canziani (PTB/PR) está à frente do projeto e vai levar a pauta em audiências públicas com o Conselho Nacional de Educação (CNE), o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). Segundo a deputada, algumas normas de funcionamento serão estabelecidas para ter um maior controle do que está sendo feito nos lares.

O texto que será levado ao Plenário apresenta determinações, como a exigência do responsável pelo ensino da criança ter graduação, os alunos estarem vinculados a uma instituição de ensino para monitoramento das atividades, o uso de conteúdos que sigam a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), além das avaliações bimestrais ou anuais, que devem ocorrer com frequência.

Por Thaiza Mikaella

Ainda sem a aprovação de lei que regulamente o ensino domiciliar no País, o Ministério da Mulher, da Família e Direitos Humanos (MMFDH), comandado por Damares Alvares, orientou os conselhos tutelares a não considerar como evasão escolar os casos de crianças e adolescentes que não estejam matriculadas em escolas e são educadas em casa, o homeschooling. O Ministério Público Federal (MPF) pediu imediata suspensão da ordem por entender que desrespeita a legislação.

O ofício com a orientação aos conselhos foi enviado no fim de maio, um mês após a gestão Jair Bolsonaro ter encaminhado projeto de lei (PL) sobre o tema ao Congresso - ainda não há previsão para que a matéria seja apreciada. Segundo decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de 2018, a regulamentação do homeschooling deve ser aprovada pelo Legislativo, já que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

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A pasta orientou que, enquanto o projeto estiver em tramitação, os casos não sejam considerados como abandono intelectual. Também pede aos conselheiros que procedimentos em apuração sejam interrompidos até a votação do projeto.

Anteontem, o MPF recomendou a suspensão imediata por considerar que "nenhuma norma do ordenamento jurídico pátrio que define a obrigação dos responsáveis legais de zelar pelo bem-estar do educando foi revogada, principalmente aquela que determina a obrigatoriedade de promover a matrícula".

Deborah Duprat, procuradora federal dos Direitos do Cidadão, diz que também encaminhou ofício a todos os conselhos orientando sobre a ação correta nesses casos. [O OFÍCIO]Questionado pelo Estado sobre o pedido do MPF, a pasta não respondeu até as 21 horas.

Promessa

Bandeira de campanha de Bolsonaro, a regulamentação do homeschooling foi colocada como uma das ações prioritárias dos cem primeiros dias de governo - a liberação da modalidade é demanda antiga de grupos conservadores religiosos. A ideia inicial do governo era editar uma medida provisória (MP), que tem tramitação mais rápida. Com receio de a MP ser rejeitada, o governo recuou e enviou o PL.

A proposta prevê o cadastro de alunos e avaliações anuais do Ministério da Educação. Caso o aluno seja reprovado por dois anos seguidos, perderá o direito de estudar nesse modelo. Segundo o projeto de lei, as famílias terão de apresentar documentos como antecedentes criminais, caderneta de vacinação atualizada e plano pedagógico individual.

Quem defende o modelo diz que os pais têm o direito de decidir como e onde os filhos vão receber o ensino. Já especialistas em educação veem prejuízo em privar a criança do convívio à diversidade. Também dizem que a prática não tem eficácia comprovada nem em países onde foi regulamentada, como os Estados Unidos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Em audiência pública nesta terça-feira (7), no Senado Federal, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que a educação tem de ser prioridade dos pais na formação de seus filhos e defendeu a opção de escolha dos pais em ensinar seus filhos em casa – o chamado ensino domiciliar ou homescholling.

“Quem coloca os filhos no mundo tem que ter a primazia na educação. […] Se o pai e a mãe estão educando bem os seus filhos, quem somos nós para interferir? Não é o que eu faria para os meus filhos, não foi o que eu fiz. Acho importante a interação [com outras crianças na escola], mas eu tenho que respeitar o direito do próximo para ter o meu respeitado”, disse Weintraub na Comissão de Educação do Senado.

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O tema entrou na pauta do governo brasileiro, provocado pela Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned) que pediu a regulamentação desta modalidade de ensino. De acordo com levantamento da associação, de 2018, 7,5 mil famílias educam os filhos em casa - número que representa mais que o dobro das 3,2 mil de famílias identificadas em 2016.

Com isso, o governo preparou um Projeto de Lei (PL) para o Congresso Nacional com os requisitos mínimos que pais ou responsáveis legais devem cumprir para essa opção, tais como o cadastro em uma plataforma a ser desenvolvida pelo Ministério da Educação e a possibilidade de avaliação.

No ano passado o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu não reconhecer o ensino domiciliar, por não haver no país previsão constitucional sobre o tema. Durante a discussão no STF, manifestaram-se contrárias ao homeschooling a Advocacia-Geral da União (AGU) e a Procuradoria-Geral da República.

O governo federal deve editar, até a próxima semana, medida provisória (MP) para regular o ensino domiciliar de crianças e adolescentes, conhecido como homeschooling. A informação foi divulgada pela ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, ao participar do lançamento da Frente Parlamentar em Defesa do Homeschooling na Câmara dos Deputados. 

Segundo a ministra, a MP vai instituir regras para cadastro e acompanhamento das famílias e avaliação dos estudantes. “A proposta já vem trazendo um indicativo de como vai ser o cadastro. Em mais cinco dias, entregaremos ao Congresso Nacional, se tudo der certo.”

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No entanto, a medida não disciplinará sobre o acompanhamento dos estudantes por meio dos conselhos tutelares. "Estamos aguardando contribuições do Congresso ao texto", disse Damares. “Aspectos como conteúdo e avaliação deverão ser regulados pelo Ministério da Educação e também não constarão da medida”, acrescentou a ministra. 

Em setembro do ano passado, por 9 votos a 2, o Supremo Tribunal Federal rejeitou essa modalidade de ensino. Pelo entendimento da maioria, a Constituição prevê apenas o modelo de ensino público ou privado, cuja matricula é obrigatória, e não há lei que autorize a medida.

Frente Parlamentar

A frente parlamentar pretende disseminar a modalidade de ensino domiciliar pelo país. Segundo a Associação Nacional de Educação Domiciliar, o homeschooling já é adotado em mais de 60 países.

De acordo com Damares Alves, a MP é uma das prioridades dos 100 primeiros dias de governo do presidente Jair Bolsonaro. “O ensino domiciliar tramita neste Congresso Nacional há mais de 25 anos. Então, nos últimos anos, o presidente, enquanto deputado, participou ativamente dos debates – é um tema que ele conhece, é um tema que agrada ao coração dele. E, aqui, é um respeito às famílias brasileiras, que querem a liberdade de poder escolher a modalidade de ensino para os seus filhos”, afirmou.

O ano de 2019 começou com diversas mudanças no país, após a posse do presidente Jair Bolsonaro. Há a promessa de um novo governo, com reformas e reformulações que estão sendo ou já foram realizadas no Brasil. Uma delas é na perspectiva da educação. Segue sob preparação o texto que pretende regulamentar e legalizar a educação domiciliar no país.

Uma prática não muito difundida no Brasil, mas já adotada em outros países, como os Estados Unidos, a educação domiciliar, ou homeschooling, é a ação de ensinar conteúdos vistos em sala de aula no âmbito familiar. Em terras brasileiras, o governo estima um total de 31 mil famílias praticando o homeschooling. Um número bem mais enxuto foi divulgado pela Associação Nacional de Educação Familiar (Aned): 7,5 mil famílias educam os filhos em casa.

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E é sob uma ótica majoritariamente religiosa que a Medida Provisória (MP) é preparada pelo governo. Criado pela gestão do presidente Jair Bolsonaro, é no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandado pela ministra Damares Alves, em que o projeto é tocado, saindo do seio do Ministério da Educação (MEC).

Segundo o texto em elaboração pelo diretor da Aned, Alexandre Magno Moreira, que tem cargo na pasta da ministra Damares Alves, o homeschooling poderá ser praticado do ensino infantil ao ensino médio. Além disso, também haverá um registro oficial das famílias praticantes do tipo de ensino. Ainda será pautada a aplicação de provas com o intuito de avaliar as condições de aprendizado das crianças submetidas a essa prática. O LeiaJá entrou em contato com o Aned, mas não obteve resposta.

Judicialmente, uma medida provisória só deve ser aplicada em caráter de urgência. A justificativa para que ela pudesse ser fincada foi a de que as famílias praticantes do homeschooling foram “postas na ilegalidade” pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2018, o STF cravou que a educação domiciliar só poderia ser realizada no Brasil quando houver normas com regras definidas.

Dentro de casa

O empresário Inácio Barreto* pratica educação doméstica com os filhos Ana* e Caio Barreto*, de dez e seis anos, respectivamente, desde 2017. A família de Barreto é composta por ele, os dois filhos e a esposa, Joana Barreto*. Inácio tem um e-commerce e trabalha home office. Já Joana resolveu não trabalhar para poder estar em casa e cuidar dos filhos, assim que nasceram. “Não é regra, é possível que tenha diferente, mas 99% das famílias que praticam homeschooling, são compostas por um casal de homem e mulher”, salienta Inácio.

O homem tomou conhecimento da prática do ensino doméstico entre os anos de 2015 e 2016, e decidiu inserir os filhos. “O motivo da minha escolha é para dar um suporte melhor, uma educação individualizada tem a tendência de ter um resultado superior. As escolas massificam e muitas crianças não aprendem o que deveriam aprender”, explica Inácio Barreto

Segundo o empresário, antes do homeschooling, as crianças estudavam regularmente em escolas tradicionais do Recife. “Quando eles saíram, minha filha sentiu mais do que meu filho. Como ele é muito pequenininho, não fez diferença. Ela ficou meio ‘assim’, mas se adaptou fácil”, revela o homem. Ele ainda fez uma crítica ao sistema educacional brasileiro. “O homeschooling é uma alternativa a essa educação que não cumpre o seu papel de formar cidadãos para a vida e profissionais para o mercado de trabalho”, pontua o empresário.

O segredo para que Ana e Caio tenham responsabilidade com os estudos está na rotina e na disciplina, segundo Inácio. As crianças têm aulas, dadas pelos pais, de segunda a sexta-feira, na parte da manhã, com duração de 1h30. À tarde, elas fazem uma espécie de “reforço” do que foi aprendido no contraturno, de 30 minutos. “O tempo vai depender de criança para criança. Na escola, esse tempo é maior porque o ensino é massificado. Com o trabalho individualizado, o resultado chega em 20 minutos”, diz.

Os conteúdos que os pequenos estudam, por sua vez, não são exatamente iguais aos que crianças da mesma faixa etária veem na escola. “O que uma criança precisa é do básico, português e matemática. Se meu filho tiver o domínio do português, souber matemática, conhecer uma outra língua e ter a preocupação com a sociedade, e respeite o indivíduo… tem maior socialização que esta?”, indaga o empresário Inácio Barreto. Ele salienta, ainda, que assuntos mais complexos devem ser dado às crianças conforme suas habilidades. "Se meu filho tem dom para música, minha filha tem para a área de Exatas, eu vou explorar isso, me aprofundar nisso, pode ser até mesmo contratando um professor para dar aula para eles de assuntos que não domino”, diz.

Pedagogos e especialistas criticam a educação domiciliar com o argumento de que o aprendizado não é realizado somente dentro do ambiente de sala de aula, como também no convívio em sociedade. Como defensor do homeschooling, Inácio rebate essa argumentação, afirmando que existem outras diversas formas de socializar. “Eles não estão preocupados com a socialização das crianças. Quando eu digo que meu filho faz natação duas vezes por semana, minha filha faz inglês, fazem karatê, eles vão à igreja aos domingos, e têm todo o tipo de outros momentos de socialização, não tem como dizer que a preocupação é isso”, opina.

Quando questionado pela reportagem do LeiaJá se colocará novamente os filhos na escola, Inácio é taxativo. “Não. A única visão de escola que eu posso pensar em colocar meus filhos novamente é aquela que abrirá para matérias isoladas. Por exemplo, só colocar minha filha para estudar química, física ou biologia”, revela.

Dentro da escola

Se por um lado existem os defensores do homeschooling, há quem seja totalmente contra a prática. Entre as pessoas que fazem oposição à proposta de MP realizada pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos está o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Edson Francisco de Andrade. Segundo o docente, a única forma de o homeschooling ser positivo é se ele for uma ação complementar às práticas escolares. “Mas se for para substituir a escola, é o Estado se omitindo do seu dever e passando o papel para a família”, garante.

Especialista na legislação educacional, Andrade salienta que o Código Penal Brasileiro prevê crime em abandono escolar. O artigo 246 crava  que “deixar, sem justa causa, de prover a instrução primária de filho em idade escolar” garante pena de 15 dias a um ano de reclusão ou multa para os genitores.

O professor ainda aponta que a família assumir o papel de educar é a inversão da isonomia do direito à educação. “Ou seja, a universalização do direito à educação não vai valer. Cada família vai fazer como lhe couber. A educação brasileira teve toda uma produção de diretrizes curriculares. Produzimos essas diretrizes nacionais com base nos direitos humanos”, explica Edson Francisco de Andrade.

O impacto da regulamentação dessa medida para o docente é a não garantia do direito à educação, segundo o professor. “A criança tem direito ao saber historicamente produzido. Como a família poderá garantir que ela vai ter acesso a isso?”, questiona o professor. A participação da família, para ele, é de complementação e suporte à escola. "Na condição de que o homeschooling será uma negação à escola, como se ela fosse condenada e a única salvação fosse a educação promovida pela família, a medida é um grande retrocesso”, certifica o professor Edson.

Apesar das mudanças e da caminhada para a aprovação da MP, o Conselho Nacional da Educação (CNE) mantém o parecer indicado em 2010, “que considera a prática ilegal por não haver legislação sobre o tema". "Mesmo posicionamento confirmado em 2018 pelo STF”, considerou, em nota enviada à reportagem LeiaJá.

Após contato realizado pelo LeiaJá, a assessoria de imprensa do Ministério da Educação (MEC) limitou-se a reforçar a nota publicada em 15 de fevereiro. Confira o parecer da pasta, na íntegra, abaixo:

“O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, por meio da Secretaria Nacional da Família, em conjunto com o Ministério da Educação, informa que o texto da Medida Provisória (MP) que trata da educação domiciliar está em fase de elaboração. Tendo em consideração a densidade e a relevância do tema, é fundamental prosseguir com o diálogo para garantir que a MP possua efetividade e amplitude, e que respeite o equilíbrio harmônico entre os poderes da República.”

*Nome fictício

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-> 'Educação em casa não substitui a escola', diz MEC

A religião é o motor do homeschooling no Brasil. Apesar das famílias que tiram os filhos da escola e fazem educação domiciliar serem um grupo diverso, que vai do alternativo ao ultraconservador, foram os cristãos que se organizaram e ganharam voz. Boa parte da bancada evangélica e católica no Congresso é a favor da prática. São os mesmos parlamentares que também defendem o projeto Escola sem Partido, que combate uma suposta doutrinação de professores. Posicionar-se contra o ensino formal - algo visto por muitos como libertário - se tornou uma pauta da direita. E é uma prioridade de Jair Bolsonaro para os primeiros cem dias de governo.

Apesar de ser proibido no País, já que a matrícula na escola é obrigatória por lei para crianças e jovens de 4 a 17 anos, o número de estudantes em homeschooling só cresce. Estimativas de entidades ligadas à pauta indicam haver cerca de 7 mil famílias. Em 2011 eram cerca de 300. Mas como vivem na clandestinidade, é impossível saber ao certo. Há quem fale em 5 mil ou em 13 mil. No fim do ano passado, analisando o caso de uma família, o Supremo Tribunal Federal (STF) reiterou que a prática é ilegal, o que fez aumentar a preocupação dos adeptos da prática.

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O mercado em torno do homeschooling também tem aumentado. Na internet, já há empresas brasileiras especializadas em materiais para quem quer educar em casa. Todos eles têm em seus catálogos livros ou apostilas com conteúdo religioso. No site chamado Materiais de Homeschooling há uma apostila ilustrada para crianças de 4 e 5 anos que começa com a frase: "No princípio Deus criou o céu e a terra". Página por página, há descrições de como Deus criou as plantas, os animais, as estrelas, sempre com exercícios, como pintura ou ligue os pontos. "Deus fez a mulher à (sic) partir de uma costela do homem. "Você sabe qual parte do nosso corpo são as costelas?", questiona uma outra atividade. As responsáveis pelo site, duas mães que praticam homeschooling Renata Correa e Glaucia Mizuki, não quiseram dar entrevista.

Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e atual símbolo da direita conservadora, é autor de um dos projetos de lei para autorizar a educação domiciliar. Mês passado, este e outros projetos sobre o tema foram desarquivados a pedido do deputado Alan Rick (DEM-AC), da bancada evangélica. Ele também propôs a regulamentação da prática em 2018 na Câmara. "O debate do Escola sem Partido, em que descobrimos muitas situações de doutrinação, coisas absurdas na sala de aula, acabou influenciando muitos parlamentares da bancada cristã a apoiarem o homeschoooling", diz Rick.

Outro autor de projeto sobre o assunto é o deputado Lincoln Portela (PR-MG), pastor evangélico. Para ele, a educação domiciliar ainda não avançou na Câmara porque a "Comissão de Educação é muito pressionada pelos partidos de esquerda". "Eles querem um público cativo nas escolas para serem doutrinados com viés de esquerda." Portela já foi ao Ministério da Educação, ao Conselho Nacional de Educação (CNE), à Procuradoria Geral da República falar sobre homeschooling.

Portela tem se reunido com a pastora evangélica Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, a quem foi dada a tarefa de preparar a medida provisória sobre o assunto. Ela deve ser apresentada nos próximos dias. A solução acelera o processo, mas o tema terá de ser votado no Congresso. Damares também é crítica do que chama de doutrinação de professores e ideologia de gênero. Mas o governo tem dito que quer regularizar o ensino domiciliar para dar "liberdade aos pais".

Um quarto dos que fazem homeschooling no Brasil diz ter optado pela prática por "princípios da fé familiar", segundo pesquisa da Associação Nacional de Educação Familiar (Aned). Outros 9% falam em "doutrinação" como razão e 23% discordavam do "ambiente escolar". A maior parte (32%) diz que queria "oferecer uma educação personalizada", motivo que pode englobar todos os outros.

Os Estados Unidos têm o maior número de alunos estudando em casa do mundo, cerca de 2 milhões - a prática é regulamentada em alguns Estados. Segundo estudos do professor da Universidade de Indiana e especialista no assunto, Robert Kunzman, não se sabe ao certo se os cristãos são maioria. "Mas o que não se discute é o perfil dominante dos grupos cristãos de defesa da educação domiciliar.

Sua influência na política muitas vezes cria a impressão de que homeschoolers são principalmente cristãos conservadores." Para ele, essas famílias veem a educação dos filhos como uma "responsabilidade sagrada dada por Deus". "Muitos pais fazem um excelente trabalho, mas alguns não são eficazes em ajudar seus filhos a aprender conteúdo acadêmico importante", disse ao jornal O Estado de São Paulo. Kunzman acredita que "a liberdade e flexibilidade do homeschooling permitem que os pais criem um ambiente educacional que reflita seus valores e prioridades" para "guiar escolhas morais".

Família

Carlos (nome fictício) resolveu mudou para um sítio com a mulher e as filhas depois que as tirou da escola. Lá, distante dos olhares curiosos e que poderiam levar a uma denúncia, a família católica usa o material didático de um site chamado Instituto Cidade de Deus. "Não temos nada contra a escola, mas acho que no homeschooling podemos passar com mais eficiência e competência os nossos valores", diz ele, que preferiu não ter o nome divulgado. A rotina inclui orações, leituras e visitas a museus e outros espaços culturais. "Além de aprenderem, fortalecemos a família."

O Instituto Cidade de Deus define-se como "grupo de professores católicos que deseja educar crianças e jovens para a santidade e sabedoria". Há livros que vão da alfabetização ao ensino médio, sempre com imagens santas na capa. O currículo, segundo o próprio site tem "sentido espiritual", com disciplinas como Leitura da Sagrada Escritura, Vida de Oração e Doutrina Católica segundo o Catecismo Maior de São Pio X. O material completo do 1º ano do ensino médio custa R$ 3.600. "É cada vez maior o número de pessoas conscientes, que compreendem o modelo atual de educação como um modelo que levará o mundo ao mais profundo abismo", diz o texto do site. Os responsáveis não quiseram dar entrevista.

Já Classical Conversations tem livros e jogos que ensinam a criança a memorizar os conteúdos. Na disciplina de História, os alunos começam pela "Criação e, finalmente, concluindo com a queda do Egito até Roma". A apresentação do material explica: "nossa série histórica aplica o método clássico, cuja eficácia é comprovada para a memorização dos fatos." Muitos dos materiais, como alguns sobre o Antigo Testamento, estão em inglês. Nos EUA, há diversos sites que vendem materiais religiosos para homeschooling, inclusive com vídeo aulas para as crianças que estão em casa. A dona da Classical Conversations, que é americana e criou a empresa no ano passado, conversou com a reportagem, mas depois pediu que a entrevista não fosse publicada.

Os materiais para homeschooling não levam em conta a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) aprovada em 2018 pelo governo federal para dar referências do que deve ser aprendido por todos os estudantes brasileiros. No 9º ano, por exemplo, a BNCC especifica que é preciso "discutir a evolução e a diversidade das espécies com base na atuação da seleção natural sobre as variantes de uma mesma espécie, resultantes de processo reprodutivo". Para a educadora Andrea Ramal, a posição da família com relação à evolução humana deve ser respeitada, mas não se pode "privar as crianças e os jovens do seu direito de conhecer todas as visões e formar seu próprio julgamento crítico e suas escolhas, tanto religiosas como acadêmicas".

"É um universo paralelo", diz Ivan Claudio Pereira Siqueira, presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE). "Mesmo a educação religiosa tem normas nacionais a serem cumpridas, não é liberdade total para fazer o que quiser. O Estado é laico e mesmo no ambiente privado há interesses públicos." Siqueira coordenou o grupo no CNE que debateu o assunto no ano passado, já numa preparação para o caso de o STF autorizar a educação domiciliar, o que acabou não acontecendo. Segundo ele, é preciso pensar na implicação da autorização do homeschooling no País. "Quem vai verificar os direitos de aprendizagem das crianças, os materiais didáticos? E se houver pedidos dos pais por recursos públicos?

O governo não detalha como será o projeto, mas diz que ele deve prever uma avalição anual dos estudantes, como adiantou o jornal O Estado de São Paulo. Funcionários do Ministério da Educação (MEC) têm o papel apenas de auxiliar os colegas da pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos na elaboração da medida provisória.

Cesar Callegari, ex-conselheiro que participou das discussões no CNE, vê com preocupação a prevalência dos grupos religiosos entre mais organizados. Para ele, a intenção é evitar que as crianças tenham contato com a diversidade presente na escola. "Os grupos religiosos querem, por meio do homeschooling, criar quadros puros para eles próprios."

"Deus tocou meu coração no 9º anou", conta Karlo André Valdivia, hoje com 19 anos, que deixou a escola com 14. Ele diz ter sabido da possibilidade de homeschooling por meio de amigos, cristãos como ele. O adolescente estudava em uma escola evangélica particular, mas conta que mesmo lá via atitudes dos colegas que não o agradavam. "Muita pornografia, palavreado."

Os pais, funcionários públicos, não podiam ajudá-lo, então Karlo resolveu estudar sozinho. Procurou materiais pela internet, organizou seus horários e no fim de quatro anos entrou em Medicina na Universidade Federal de Roraima. "Toda vez que alguém descobria que eu não estava na escola comentava que eu precisava voltar." Karlo disse que nunca teve vontade, encontrava os amigos em outros momentos e não se sentia isolado. "Além da questão cristã, na escola estaria dando um passo atrás, sentia que aprendia mais em casa."

Educadores temem que medida legitime abandono escolar

O Brasil tem 1,4 milhão de crianças e jovens fora da escola, a maioria entre 15 e 17 anos. Mas há também 200 mil que têm entre 6 e 14 anos. Os que fazem educação domiciliar são cerca 15 mil, de 7 mil famílias. Por isso, educadores se preocupam com a intenção do governo federal de autorizar o homeschooling. "Pode legitimar situações de crianças que estão fora da escola por causa de trabalho infantil, preconceito de gênero ou raça", diz Anna Helena Altenfelder, presidente do conselho do Cenpec. "Muitos adolescentes hoje abandonam a escola para entrar no mercado de trabalho e ajudar a família. Correríamos o risco de alguns pais deixarem de matricular os filhos na escola para resolver uma questão financeira", completa a educadora Andrea Ramal.

Especialistas também questionam o fato de o tema ter sido tratado como prioridade pelo governo - e por medida provisória - quando 48 milhões de crianças estão nas escolas, com aprendizagem ruim. "O homeschooling tem que ser regularizado via Congresso. Se não consegue ser aprovado lá é porque a sociedade não quer", diz a especialista da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Maria Celi Vasconcelos.

Para ela, mesmo com grupos tão diferentes que fazem homeschooling, eles têm uma questão em comum, a crítica à escola. "De alguma maneira, ela não atendia às expectativas dos seus filhos, fossem de formação, de valores, de conhecimento propriamente dito." A especialista, que fez doutorado no assunto, também vê a educação domiciliar como "um acirramento das práticas neoliberais". "O pano de fundo é o papel do Estado, até onde ele vai dar conta da escolarização no seculo 21, oferecendo educação de qualidade?"

Jovem criou seu próprio método para aprender

Victor Hugo Duque desistiu da escola quando tinha 14 anos porque "queria conhecer o mundo de verdade, sem só seguir regras e livros". Mineiro, de uma família simples da pequena cidade de Timóteo, não aguentou mais as aulas expositivas dos professores e decidiu que criaria o próprio método de aprendizagem. Uma das "disciplinas" inventadas foi a de Cinema. "Via filmes e depois analisava questões sociais, culturais e econômicas envolvidas na história", conta. Com materiais da internet, estudou sozinho finanças pessoais, microeconomia, política, administração.

A mãe, professora da mesma escola que ficou para trás, primeiro foi contrária, depois cedeu e apostou que ele não ia dar conta. "Foi muito constrangedor no começo, tinha de explicar que não tinha sido ideia minha", conta Elizette Dutra e Duque, de 52 anos. Ela e o marido metalúrgico acabaram confiando no menino, mas exigiram que fizesse provas todos os anos para medir sua aprendizagem. Já no 1.º ano de educação domiciliar, Victor Hugo tirou ótima nota no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Hoje, aos 21 anos, cursa Administração Pública na Fundação Getulio Vargas (FGV), que sempre foi seu objetivo. Para conseguir bolsa na faculdade, já que seus pais não podiam pagar a mensalidade, escreveu uma carta contando sua trajetória de homeschooling. "Todo mundo acha que você é doido, mas pra mim foi mais fácil e mais produtivo", conta. "Meu papel era falar: Victor, chega de estudar hoje, estou cansada de ver você lendo livros", brinca a mãe. "Mas homeschooling não é para todo mundo, precisa muito empenho, foco, perseverança."

"O sucesso de crianças e adolescentes do homeschooling é evidência palpável de que, em geral, eles serão tão - ou mais - alfabetizados, bem socializados e produtivos que os que foram à escola", disse ao jornal O Estado de São Paulo o presidente da National Home Education Research Institute (NHERI), Brian D. Ray. Ele é autor de várias pesquisas americanas que mostram desempenho melhor de quem faz educação domiciliar.

Outros pesquisadores, no entanto, questionam as amostras usadas em seus estudos porque usam famílias voluntárias e com nível socioeconômico maior que a média. "O problema é que não conseguimos saber o desempenho acadêmico médio de quem faz homeschooling", diz o professor da Universidade de Indiana (EUA) Robert Kunzman. Para ele, quem faz educação domiciliar deveria passar por avaliações do governo. "Não necessariamente para restringi-los do ensino doméstico, mas para descobrir como ajudá-los", afirma. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Há sete anos, a dona de casa Sharol Werneck Gomes educa os filhos, que hoje têm 10 e 8 anos, em casa. A experiência começou com a filha que, quando tinha 4 anos e meio, foi alfabetizada em casa. “Eu optei, em princípio, porque achei interessante ter essa opção de educar meus filhos em casa”, conta. A filha chegou a ir para a escola, mas a experiência não foi boa, o que fez com que Sharol tivesse mais certeza do caminho escolhido inicialmente.

“A professora gritava muito na sala de aula. Como estava adiantada, minha filha foi colocada como monitora, trouxe um peso sobre ela, que não tinha maturidade para lidar com essa situação. Então, ela ficou bem desgastada. E a professora ainda colocou para ajudar coleguinhas, que implicavam muito com ela. Era bem ruim, ela chorava todos os dias”, diz.

O filho, mais novo, nem chegou a frequentar as salas de aula. Sharol, que não passou por nenhuma capacitação formal para dar aulas, diz que está constantemente pesquisando e lendo sobre os melhores métodos. “Eu pesquiso a base curricular para saber mais ou menos o que preciso ensinar, uso como um norte, mas não fico presa a ela não”. Atualmente, ela e o marido coordenam um grupo de apoio para educação familiar em Cascavel (PR), do qual participam 30 famílias.

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O número de famílias que optam pela educação em casa, prática conhecida como homeschooling, cresce a cada ano no Brasil, de acordo com Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned). Em 2018 chegou a 7,5 mil famílias, mais que o dobro das 3,2 mil famílias identificadas em 2016. A estimativa é de que hoje 15 mil crianças recebam educação domiciliar.

O homeschooling, no entanto, não é regulamentado no país. Um julgamento marcado para esta semana no Supremo Tribunal Federal (STF) deve trazer à tona uma longa disputa entre pais que desejam educar seus filhos em casa e o Poder Público, que diz que a Constituição obriga a matrícula e a frequência das crianças em uma escola.

Desde 2015 o assunto aguarda julgamento pelo Supremo, que deve definir um entendimento único para todos os casos desse tipo que tramitam na Justiça brasileira, estabelecendo o que o tribunal chama de tese de repercussão geral.

Ação

O caso que será julgado em plenário e servirá de parâmetro para os demais foi levado ao Supremo pelo microempresário Moisés Dias e sua mulher, Neridiana Dias. Em 2011, o casal decidiu tirar sua filha de 11 anos da escola pública em que estudava no município de Canela (RS), a aproximadamente 110 km de Porto Alegre, e passar a educá-la por conta própria.

Eles alegaram que a metodologia da escola municipal não era adequada por misturar na mesma sala alunos de diferentes séries e idades, fugindo do que consideravam um “critério ideal de sociabilidade”. O casal disse que queria afastar sua filha de uma educação sexual antecipada por influência do convívio com colegas mais velhos.

Outro argumento foi o de que a família, por ser cristã, acredita no criacionismo – crença segundo a qual o homem foi criado por Deus à sua semelhança – e por isso “não aceita viável ou crível que os homens tenham evoluído de um macaco, como insiste a Teoria Evolucionista [de Charles Darwin]”, que é ensinada na escola.   

Em resposta, a família recebeu um comunicado da Secretaria de Educação de Canela ordenando a “imediata matrícula” da menina em uma escola. O Conselho Municipal de Educação também deu parecer contra o ensino domiciliar, “por considerar que o mesmo não se encontra regulamentado no Brasil”.

O casal recorreu à Justiça, mas teve negado um mandado de segurança em primeira e segunda instâncias. Em sua sentença, o juiz Franklin de Oliveira Neto, titular da Comarca de Canela, escreveu que a escola é “ambiente de socialização essencial” e que privar uma criança do contato com as demais prejudica sua capacidade de convívio.

“O mundo não é feito de iguais”, escreveu o juiz. “Uma criança que venha a ser privada desse contato possivelmente terá dificuldades de aceitar o que lhe é diferente. Não terá tolerância com pensamentos e condutas distintos dos seus”.

O caso seguiu até chegar ao STF, onde é relatado pelo ministro Luís Roberto Barroso.

Posicionamentos contrários

Provocada, a Advocacia-Geral da União (AGU) disse que as normas brasileiras estabelecem que a educação deve ser oferecida gratuita e obrigatoriamente pelo Poder Público. “É muito importante destacar que a escola possibilita um aprendizado muito mais amplo que aquele que poderia ser proporcionado pelos pais, no âmbito domiciliar, por maiores que sejam os esforços envidados pela família. Isso porque ela prepara o indivíduo para situações com as quais inevitavelmente haverá de conviver fora do seio familiar, além de qualificá-lo para o trabalho”, diz a AGU.

Para a instituição, por mais diferentes que sejam os membros de uma família, nenhum núcleo familiar será capaz de propiciar à criança ou ao adolescente o convívio com tamanha diversidade cultural, como é próprio dos ambientes escolares. "Sendo assim. a escola é indispensável para o pleno exercício da cidadania”, acrescenta.

A Procuradoria-Geral da República também se manifestou, concluindo: “a utilização de instrumentos e métodos de ensino domiciliar para crianças e adolescentes em idade escolar. em substituição à educação em estabelecimentos escolares, por opção dos pais ou responsáveis, não encontra fundamento próprio na Constituição Federal".

Há oito anos, o Conselho Nacional de Educação (CNE) emitiu um parecer orientando que as crianças e os adolescentes sejam matriculados em escolas devidamente autorizadas. O CNE também entende que a legislação vigente enfatiza “a importância da troca de experiências, do exercício da tolerância recíproca, não sob o controle dos pais, mas no convívio das salas de aula, dos corredores escolares, dos espaços de recreio, nas excursões em grupo fora da escola, na organização de atividades esportivas, literárias ou de sociabilidade, que demandam mais que os irmãos apenas, para que reproduzam a sociedade, onde a cidadania será exercida”.

Educação individualizada

Quem é a favor do homeschooling argumenta, entre outras questões, que a educação em casa garante o direito à dignidade e ao respeito, assegurando uma educação mais individualizada e, portanto, mais efetiva. “Mesmo nas melhores escolas, a educação necessariamente é provida de forma massificada, sem atentar para as necessidades específicas de cada criança e sem prover a elas as técnicas, os instrumentos e as metodologias do ensino-aprendizagem mais adequadas e qualificadas ao tempo presente”, diz a Aned.

“Estamos buscando a autonomia educacional da família, não somos antiescola, não estamos lutando contra escola, apenas somos a família buscando uma nova opção que, no nosso entender, é melhor para o nosso filho”, diz o presidente da Aned, Rick Dias. Ele conta que tirou os filhos da escola há oito anos, quando a mais velha tinha 12 anos e o mais novo, 9. Hoje, a mais velha cursa relações internacionais em uma universidade particular. “Não cremos que o Estado deva definir como devemos educar nossos filhos”.

Os primeiros anos do filho na escola são os mais preocupantes para os pais. As expectativas levam a inúmeros questionamentos. Entre eles, a escolha da pedagogia mais adequada, escolha da instituição e métodos de socialização. Diante desse cenário, inevitavelmente, os pais começam a avaliar o formato de educação oferecido pelas instituições de ensino.

Durante esse processo, muitas vezes, esses pais se deparam com um conflito interno e começam a vislumbrar uma educação que atenda à singularidade humana e à formação holística do filho. Com essa perspectiva, os adultos buscam alternativas e encontram fora da escola opções. Por meio do Homeschooling e do Under schooling, conhecidos popularmente como ‘desescolarização’, os pais descobrem uma nova forma de ensinar aos próprios filhos. Essa alternativa de aprendizado, que até então era pouco defendida ou assumida, vem ganhando mais adeptos em vários estados brasileiros, inclusive Pernambuco.

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Essa mudança tomou mais força após a suspensão, do Supremo Tribunal Federal, de todos os processos em andamento que questionam a educação domiciliar. Com essa decisão, os pais que praticam o ensino domiciliar não podem ser denunciados. De acordo com a Associação da Desescolarização, o número de famílias que adotam Homeschooling dobrou de 2015 para 2016.


Em Pernambuco, é possível encontrar várias famílias que adotaram a desescolarização como uma forma de atender às especificidades dos filhos. Algumas dessas crianças começaram a estudar em escolas tradicionais, porém, foram retiradas após desilusão dos responsáveis com a forma do ensino, que é considerada tradicional. 

A dona de casa Adna Souza, que tem três filhos com 5, 8 e 9 anos, entende que a melhor forma das crianças terem uma educação de qualidade é através do Homeschooling. Atualmente, os filhos mais velhos estão na escola, porém, no próximo ano, a expectativa é que a dinâmica de apredizado seja alterada. "Estamos avaliando e poderando a melhor opção para o desenvolvimento dos nossos filhos", fala. O filho mais novo já vive o processo da educação domiciliar. 

De acordo com a mãe, que consegue se dedicar à educação dos pequenos, cada criança deve ser enxergada de forma singular e que, na escola tradicional, esse olhar não é praticado, muitas vezes pela quantidade de estudantes em sala de aula. "É impossível uma professora conseguir dar atenção para 30 crianças e perceber a dificuldade de cada uma. Acredito que o Homeschooling é uma ótima opção para os pais que conseguem e têm tempo de fazer isso, de transformar a casa em um mundo de conhecimento", defende. Com a decisão, Adna confidencia que percebe preconceito, mas também vê admiração. Para ela, o mais difícil é deixar de lado a 'cultura' da escolarização. 

Para a blogueira e mãe de Aslan, Enny Mara, de 27 anos, a experiência de ensinar o filho, de 5 anos, está sendo bastante positiva. "Por meio do ensino domiciliar, eu consigo perceber as dificuldades do meu filho e entender os assuntos que ele mais se interessa. Além disso, com a prática é possível de forma mais criativa e assertiva", reforça.

A mãe, que pratica o Homeschooling, defende que até os dez anos, a criança precisa da família. Para ela, a socialização pode ser vivenciada no ambiente social comum e público, como parques e supermercados. Segundo Enny, os pais precisam ter a liberdade de escolher em que momento o filho deve ingressar no colégio.

Quem também está adotando a prática do ensino domiciliar é a dona de casa Ariel Morais, de 32 anos. Ela revela que o ensino em casa faz com que a criança vá além das diretrizes exigidas pelo MEC e aplicadas pelas escolas. "Meu filho tem quase seis e aos quatro anos já começou a ler e hoje consegue escrever e tem uma boa base de matemática, mérito que é difícil de conquistar no colégio, porque se o aluno for mais desenvolvido, ele tem que esperar a evolução dos coleguinhas, ou seja, fica estagnado", argumenta. 

Ainda em entrevista ao LeiaJa.com, Ariel afirma que não tem receio do filho ficar sem escola até a faculdade. "Não sou contra a escola, caso precise matricular ele em alguma, vou escolher, mas se puder vou educá-lo até o final", diz. Em relação ao seu desenvolvimento nas próximas etapas escolares, como os ensinos fundamental e médio, ela adianta: "Não tenho medo do meu filho ficar sem ir à escola nessas etapas de ensino, porque sei que existe o supletivo e ele vai conseguir ingressar de todo jeito no ensino superior, caso ele queira", concluiu. 

Quando é possível 


A expectativa de conseguir ensinar o filho em casa depende de inúmeros fatores. A psicóloga Carolina Seabra tentou ensinar a filha Vitória, de oito anos, em casa, mas não conseguiu. De acordo com Carolina, a ideia é fantástica, mas precisa de dedicação, tempo e parceria com outros pais. "Investi durante seis meses, mas infelizmente não consegui", lamenta.

Para ela, a maior dificuldade foi conseguir conciliar o trabalho com a educação da pequena. Além disso, ela reforçou que a socialização escolar é ainda muito importante para a criança e que aderiu à desescolarização com o objetivo de proporcionar um pensamento mais livre e menos autoritário.

Caráter pedagógico - De acordo com a pedagoga Shirley Monteiro, a escola atua na formação do indivíduo a partir da sua subjetividade e das normas sociais. Dessa forma, a escola é importante porque a instituição trabalha no planejamento, na organização, na sistematização e principalmente na intencionalidade. "Toda a escola é preparada para entender as necessidades e formar o indivíduo em sua totalidade, além disso, há escolas que possuem um currículo bem atualizado e que vai além, desenvolvendo autonomia e a criticidade. Algumas disciplinas como aula de culinária e teatro, por exemplo, já são oferecidas", defende.

Ainda conforme Shirley, a criança, quando vive apenas no ambiente familiar, não tem acesso à socialização em sua totalidade. "Quando as crianças estão em uma sala de aula e é preciso esperar um colega, por exemplo, eles aprendem a aguardar a vez e a se colocar no momento certo. Em casa, essa realidade não é comum, a criança vai sempre ter a vez e, além disso, sempre vai ter acesso aos objetos deles, com isso, de certa forma, dificulta a socialização", comenta.  

Quanto ao nivelamento do conhecimento, a especialista pondera que é necessário ter o acompanhamento intelectual e emocional da criança de maneira simultânea. "Às vezes, a criança é muito desenvolvida na leitura e na fala, por exemplo, mas ainda não está emocionalmente preparada para uma turma mais adiantada. A partir daí, os pais precisam ter a consciência e entender o tempo de cada", lembra Shirley. 

Jurídico - No final do semestre de 2016, o ministro Luís Roberto Barroso determinou a suspensão nacional de todos os processos em curso no Poder Judiciário, individuais ou coletivos, que tratem do ensino domiciliar, o Homeschooling. A decisão foi tomada após os argumentos apresentados pelas partes no Recurso Extraordinário (RE), que discute que a prática pode ser considerada lícita de cumprimento familiar.

Antes disso, em novembro, a Associação Nacional de Educação Domiciliar solicitou a suspensão nacional dos processos que versem sobre a questão. Segundo a entidade, existem, atualmente, aproximadamente 18 processos em tramitação nos tribunais sobre a temática. 

Conselho Nacional de Educação (CNE) - O LeiaJa.com entrou em contato com o CNE para entender o posicionamento do órgão em relação à desescolarização. O CNE se posicionou contrário à pática do ensino domiciliar. Em documento, o órgão reforçou que a experiência do coexistir no meio de outras pessoas, a oportunidade do convívio com os demais semelhantes, são situações educativas que só a família não proporciona e que, portanto, não garante o que a lei chama de preparo para a cidadania plena. 

Respaldado pela Constituição, o CNE exaltou que, de acordo com o artigo 227, é de responsabilidade da 'família, da sociedade e do Estado' a educação de uma criança. "Em termos de entidades, trata-se, portanto, de uma tríplice e compartilhada responsabilidade. E é natural que assim seja, como uma obrigação cuja abrangência exige o empenho cooperativo de multivariados parceiros, a família, evidentemente um dos mais importantes. Porque, é óbvio, ela sozinha jamais teria (terá), como desincumbir-se de tão amplo espectro de tarefas", informou o Conselho.

O relator do CNE, Ulysses de Oliveira Panisset, reforça que "a educação, direito e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho, reforçando que a educação deve resultar da ação da tríade antes enunciada: Estado, Família e Sociedade".

De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, os pais devem, obrigatoriamente, matricular as crianças no ensino escolar tradicional, a partir dos seis anos de idade. Mas a entrada antes dessa idade pode ocorrer normalmente, uma vez que existem crianças que começam a estudar nas escolas antes dos sete anos. Na prática, caso os adeptos da desescolarização queiram concluir a formação e chegar ao ensino superior, eles terão que ingressar nos meios tradicionais, a exemplo do supletivo.

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