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Há cinco anos, centenas de milhares de mulheres no mundo começaram a usar a hashtag #MeToo para denunciar a violência sexual e de gênero, um movimento que continua agitando as águas em toda parte, embora ainda tenha um caminho longo pela frente.

O movimento começou em 15 de outubro de 2017, quando a atriz americana Alyssa Milano publicou uma mensagem, na qual convidava as mulheres que sofreram assédio sexual a usar a hashtag #MeToo (EuTambém) no Twitter para compartilhar seu relato.

Foi um tsunami global: os depoimentos invadiram as redes sociais em poucos dias, e as manifestações se multiplicaram em vários países.

Embora Alyssa tenha ajudado a propagar o fenômeno, a hashtag foi criada, na verdade, em 2006, poucos dias após a publicação na imprensa americana de duas investigações explosivas sobre as denúncias de abusos e estupros por parte do produtor de cinema Harvey Weinstein, que ocorreram com impunidade durante anos.

"A amplitude do movimento é extraordinária", explica à AFP Florence Rochefort, pesquisadora do Centro Francês de Pesquisa Científica (CNRS), especialista em história do feminismo.

É um momento "histórico" que permitiu "tornar visível a dimensão dessa violência".

"Mas ainda estamos longe de termos soluções implementadas", acrescenta.

Alguns homens consideram o movimento exagerado.

"O #MeToo demonstrou a rotina dessa violência sexual e sexista, seu caráter banal", seja no cotidiano na rua, no local de trabalho, em casa, explica à AFP Sandrine Ricci, socióloga especializada no tema, da Universidade de Québec, em Montreal.

"O movimento permitiu que as pessoas, particularmente as vítimas conhecidas ou potenciais, entendessem melhor o que estava em jogo", reforça.

Na opinião dessa feminista, "os danos persistem", e a sociedade tem uma tendência a "desviar a responsabilidade dos agressores, sobretudo, quando estão em posição de poder", acrescenta.

- Um problema estrutural -

O movimento #MeToo teve suas próprias versões locais em cada país.

Para Adéle Pautrat, uma fotógrafa francesa de 29 anos radicada em Bruxelas, o movimento se tornou "um símbolo da reapropriação da palavra" por parte das mulheres.

"É um problema coletivo, diante do qual é preciso saber se posicionar com firmeza", defende.

Desde o início do #MeToo, "é mais fácil falar sobre assédio sexual, que passou a ser visto mais como um problema estrutural do que individual", diz Hillevi Ganetz, professora especializada em gênero e mídia da Universidade de Estocolmo.

O movimento obrigou as empresas do mundo ocidental a reagirem. Cada vez mais empresas organizam treinamentos sobre assédio sexual e contratam pessoal qualificado para receber denúncias.

As associações feministas consideram, no entanto, que a resposta dos governos é insuficiente.

O movimento #Metoo na França se volta, agora, para o artista espanhol Pablo Picasso, problematizado pelas ativistas feministas, que descrevem o pintor como um "minotauro" e um "gênio violento" que destruiu a vida de suas companheiras.

Esta é a tese de um podcast premiado, criando no ano passado por Julie Beauzac, formada em arte, que já teve mais de 250.000 downloads.

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E também é a versão da jornalista Sophie Chauveau, que repetiu no podcast a visão apresentada no livro "Picasso, le Minotaure" ("Picasso, o minotauro", em tradução livre), de 2017.

O livro denuncia "o controle irresistível e devastador do gênio sobre todos aqueles que o amavam", explicou Chauveau à AFP.

Um gênio e, ao mesmo tempo, um homem "violento e destrutivo".

"Obviamente que o #MeToo afetou o artista, e este podcast prova isso", disse à AFP a nova diretora do Museu Picasso de Paris, Cécile Debray.

"O ataque é mais violento, porque Picasso é a figura mais famosa e popular da arte moderna. Um ídolo que deve ser derrubado", acrescentou, defendendo que "o tema deve ser abordado com muitas nuances e prudência".

Já o Museu Picasso de Barcelona entrou no caminho de revisão da figura do artista. A instituição acaba de concluir a oficina "Reduzir a libido do minotauro: confrontamos a masculinidade picassiana" e também prepara um simpósio internacional sobre o tema para o mês de maio.

"Esta reflexão sobre Picasso, e o olhar feminista, ou feminino, sobre sua obra são um debate eminentemente atual, que não deve ser evitado e que não deve virar uma caricatura", disse o diretor da instituição, Emmanuel Guion, à AFP.

Ao mesmo tempo, "é importante procurar pessoas competentes" para guiar esta discussão, completa.

Picasso teve oito relacionamentos mais ou menos longos e estáveis. Duas dessas companheiras, Marie-Thérèse Walter e Jacqueline Roque, cometeram suicídio, anos após a morte do pintor.

As mulheres estimularam as transições artísticas de Picasso, encorajando-o a buscar novos rumos, os quais marcaram, por sua vez, a história da arte contemporânea, segundo especialistas.

Picasso conquistou mulheres jovens, mas as acusações de abuso são "afirmações sem referências históricas, aproximadas e anacrônicas", afirma Debray.

"Picasso praticamente não deu entrevistas e, certamente, nenhuma sobre sua vida pessoal", lembra Olivier Picasso, neto do artista, à AFP.

"É por meio das obras que podemos traçar o roteiro afetivo, com obras mais violentas, outras mais ternas", explica.

Em 1907, por exemplo, Picasso pintou um retrato da colecionadora e escritora Gertrude Stein, que incentivou Picasso quando ele tinha 19 anos e era desconhecido em Paris. Stein era lésbica, e seu retrato foi um autêntico parto artístico para Picasso.

A tese do professor americano Robert Lubar, da Universidade de Nova York, que participou de cursos do Museu Picasso de Barcelona, é que o artista não conseguia pintar uma personagem muito forte para ele, a antítese da mulher como objeto de contemplação artística, ou de posse sexual.

Esta luta "revela o confronto ansioso do artista (...) com a questão da diferença sexual", explicou Lubar em um ensaio de 1995, considerado um dos pontos iniciais da atual revisão histórica de Picasso.

Para outros especialistas, porém, como o artista e biógrafo Gilles Plazy, o retrato foi apenas uma luta interna, exclusivamente artística, de Picasso. Nessa abordagem, ele não conseguia pintar o rosto de Stein, porque sentia que precisava mudar de rumo.

Foi depois deste quadro que Picasso produziu uma de suas obras mais famosas: "As senhoritas de Avignon" (1907), um retrato de um grupo de prostitutas que explodiu no cenário de arte e deu espaço ao cubismo.

Uma denúncia de abuso sexual na China, considerada o primeiro caso #MeToo na história do país, foi arquviada pela justiça.

Zhou Xiaoxuan, de 28 anos, acusou em 2018 o famoso apresentador Zhu Jun de beijá-la e acariciá-la à força quando ela era estagiária, quatro anos antes, na televisão nacional.

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Suas denúncias provocaram uma avalanche de testemunhos similares nas redes sociais, assim como aconteceu com o movimento #MeToo de denúncia de assédio sexual nos países ocidentais.

Mas após três anos de batalha jurídica, um tribunal de Pequim decidiu na terça-feira que não havia provas suficientes para justificar um processo.

"As evidências apresentadas pela denunciante Zhou não são suficientes para estabelecer que foi objeto de assédio", afirma um comunicado do tribunal do distrito de Haidian.

Zhou, censurada nos últimos anos pelo regime, demandava desculpas públicas e uma indenização de 50.000 yuanes (7.760 dólares).

A China aprovou no ano passado uma lei de combate ao assédio que, no entanto, não foi suficiente para convencer a maioria das mulheres que relutam no momento de denunciar este tipo de caso, que raramente chega à justiça.

O movimento #metoo finalmente vai chegar à indústria dos jogos eletrônicos? Embora não exista uma certeza a respeito, o setor, acusado há muitos anos de sexismo, se vê obrigado a enfrentar o problema, destacam os analistas.

O primeiro exemplo importante remonta ao "Gamergate" de 2014, como foi chamado o caso de assédio virtual à criadora americana Zoe Quinn.

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Várias controvérsias foram registradas, mas nada levou a uma tomada de consciência global similar ao efeito que o #metoo teve, por exemplo, no mundo do cinema.

Nas últimas semanas, porém, várias acusações de sexismo e assédio contra executivos da empresa francesa Ubisoft resultaram no afastamento do número dois do grupo, da diretora de recursos humanos e do diretor dos estúdios canadenses.

Durante muito tempo houve, tanto por jogadores como por estúdios, "uma falta de empatia a respeito de algo que não consideram sistêmico", opina Isabelle Collet, professora da Universidade de Genebra.

Uma tendência talvez reforçada pela cultura "geek", que se declara transgressora e desrespeitosa, e que pode levar os jogadores, quando sentem que esta cultura está sendo atacada, a optar por "representações machistas", segundo Collet.

Além das jogadoras ou criadoras de jogos, a questão da representação das mulheres nos produtos continua provocando debate.

A evolução da famosa heroína Lara Croft é um sinal da lenta tomada de consciência. A princípio era muito voluptuosa e vestia roupas curtas, mas nas últimas versões aparece com um corpo mais realista e com roupas mais adequadas para uma aventura.

"Muitos jogos propõem representações sem estereótipos, mas alguns ainda estão muito carregados com os mesmos, e isto inclui sobretudo a hiperssexualização dos corpos", indica Fanny Lignon, professora da Universidade Lyon 1 e funcionária do Centro Nacional para a Pesquisa Científica (CNRS).

"As mulheres geralmente são esbeltas, bem proporcionadas; os homens têm corpos mais variados, embora geralmente sejam jovens e atléticos. No final, encontramos uma visão transmitida por outros meios, como a publicidade, por exemplo", explica.

- Estereótipos-

As representações estereotipadas estão muito arraigadas em alguns "gamers". A silhueta musculosa de Abby, a heroína do jogo "The Last of Us Part 2", provocou uma onda de comentários negativos que consideravam o corpo "não realista" para uma mulher.

"Vemos emergir cada vez mais personagens femininos um pouco 'duros' (difícil de derrotar)", destaca Fanny Lignon. Em "Assassin's Creed Odissey, por exemplo, é possível escolher uma mulher com um "verdadeiro corpo de guerreira".

O setor afirma que tem consciência do problema da representação da mulher nos jogos e do seu espaço nos estúdios, enquanto trabalha para resolver a questão.

Na França, o Sindicato Nacional de Video Games (SNJV) afirma "trabalhar a favor de uma diversidade maior nas equipes de produção, mas é um trabalho a longo prazo, que deve ser acompanhada pelas autoridades públicas", especialmente para estimular as jovens a escolher a profissão.

"Incluir mais mulheres significa ter vontade de recebê-las melhor, é necessário criar um ambiente mais favorável", insiste Collet. "As editoras são atualmente verdadeiras empresas que devem ter ferramentas de luta contra o assédio", completa.

Muitos afirmam que o sexismo nos jogos é um reflexo de um problema global da sociedade, mais que um tema específico deste universo.

"Acontece em muitas comunidades que não são necessariamente acusadas, como a medicina ou o jornalismo", afirma Isabelle Collet. "É um ambiente que o transforma em um bom bode expiatório, mas não é necessariamente pior que os outros", indica.

"O mais irritante é que o sexismo pode ser mais comum em outros tipos de mídia sem necessariamente ser percebido", afirma Lignon.

O outrora todo-poderoso produtor de Hollywood Harvey Weinstein foi acusado nesta segunda-feira (6) de novos crimes sexuais em Los Angeles, no mesmo dia do início de seu julgamento penal em Nova York, em um dia histórico para o movimento #MeToo.

Weinstein, de 67 anos, foi acusado em Los Angeles de abusar sexualmente de duas mulheres não identificadas em 2013.

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O primeiro abuso teria ocorrido em 18 de fevereiro de 2013, quando, segundo o Ministério Público, Weinstein entrou sem permissão no quarto de hotel de uma mulher e a estuprou. No dia seguinte, supostamente abusou sexualmente de outra mulher em seu quarto de um hotel em Beverly Hills.

"As provas demonstrarão que o acusado utilizou seu poder e influência para ter acesso a suas vítimas e em seguida cometer crimes violentos contra elas", disse a promotora Jackie Lacey em nota. "Quero elogiar as vítimas que se apresentaram e contaram corajosamente o que aconteceu com elas".

Weinstein afirma ser inocente.

- "Suficientemente degradadas" -

Mais cedo, em Nova York, Weinstein foi a tribunal vestindo um terno escuro e usando um andador depois de passar por uma recente cirurgia nas costas devido a um acidente de carro que sofreu em agosto. Ele parecia pálido e fraco. Nos arredores da corte, umas 15 mulheres protestavam, inclusive as atrizes Rosanna Arquette e Rose McGowan.

"O tempo acabou, 'Time's Up'. O tempo do assédio sexual no trabalho acabou, o tempo de culpar os sobreviventes acabou, o tempo de desculpas vazias sem consequências e da ampla cultura do silêncio que permitiu que agressores como Weinstein agissem", disse Arquette.

Desde que o movimento surgiu após o tsunami de acusações contra Weinstein, quase todos os homens que foram acusados e perderam seus postos de trabalho evitaram processos penais.

O produtor de "Pulp Fiction - Tempo de violência" pode ser condenado à prisão perpétua se for considerado culpado neste julgamento sobre agressões contra duas mulheres, que deve durar de seis a oito semanas.

A audiência desta segunda, em Nova York, presidida pelo juiz James Burke durou uma hora e 15 minutos e definiu aspectos logísticos do julgamento. A primeira batalha será a seleção do júri, que começa amanhã e pode durar até duas semanas. Durante a audiência, a Promotoria pediu que o juiz ordene a defesa a manter silêncio sobre o processo fora do tribunal.

"As mulheres já foram suficientemente degradadas", disse a promotora Joan Illuzi-Orbon, acusando a advogada de defesa, Donna Rotunno de sugerir que, como muitas acusadoras são atrizes, elas estão atuando quando denunciam os abusos.

Rotunno garantiu que não fez nada errado, e criticou a promotora por classificar seu cliente como "predador" na corte.

- "Não foram em vão" -

Quase 90 mulheres, incluindo atrizes famosas como Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow, denunciaram o ex-produtor por assédio, agressão sexual, ou estupro, desde que o jornal "The New York Times" revelou várias acusações contra ele em 5 de outubro de 2017.

Weinstein está sendo julgado em Nova York apenas por agressões contra duas mulheres, já que os demais crimes prescreveram. O mesmo aconteceu em Los Angeles, onde o Ministério Público reportou casos de estupro que datam dos anos 1970 e não podem mais ser julgados.

Além das acusações apresentadas nesta segunda-feira, a promotora Lacey disse que analisa outras três denúncias. Em um comunicado, 25 mulheres que romperam o silêncio contra Weinstein, entre as quais estão Arquette e McGowan, além de Mira Sorvino, comemoraram a acusação na Califórnia.

O início do julgamento em Nova York mais o anúncio de novas acusações "são um claro indício de que os riscos que assumimos [ao contar suas histórias] e as consequências que enfrentamos posteriormente não foram em vão".

No entanto, para Bennett Gershman, ex-promotor e professor de direito em Nova York, o anúncio de Lacey pode dificultar o julgamento e dar argumentos aos advogados de Weinstein para pedir um adiamento até que a situação se acalme, explicou à AFP.

A defesa já tinha pedido para "sequestrar" o júri para evitar que outros processos judiciais - como o de Los Angeles - influa em sua imparcialidade. O juiz recusou o pedido.

- Testemunho de Sciorra -

Uma das acusadoras é a ex-assistente de produção Mimi Haleyi, segundo a qual o produtor de "Pulp Fiction - tempo de violência" praticou sexo oral nela contra sua vontade no apartamento do réu, em Nova York, em julho de 2006.

A segunda acusadora permanece no anonimato. Ela afirma que Weinstein, cofundador da produtora Miramax Films, violentou-a em um quarto de hotel de Nova York em março de 2013.

A acusação foi modificada em agosto para incluir o depoimento da atriz da série "Família Soprano" Annabella Sciorra, que relata ter sido violentada por Weinstein no inverno de 1993-94.

Se Weinstein for considerado culpado pelo júri e receber a pena de prisão, será um marco para o movimento #MeToo, que luta contra o abuso sexual e de poder em Hollywood e outras indústrias, como o jornalismo, a gastronomia e a música.

Depois de ser esnobado por produtores e atores, agora é a vez das editoras não se mostrarem interessadas em publicar o livro de memórias do cineasta americano Woody Allen - afirma o jornal The New York Times.

A publicação cita executivos de quatro grandes editoras, sob a condição de anonimato, que afirmam terem recebido um manuscrito do agente do diretor.

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Alguns deles disseram, inclusive, que sequer leram o texto.

Consultadas pela AFP, as cinco principais editoras dos Estados Unidos, a HarperCollins, a Hachette, a Macmillan, a Simon & Schuster e a Penguin Random House, não comentaram o fato.

O agente de Woody Allen não respondeu às perguntas da AFP.

Desde que o movimento #MeToo começou, o diretor foi atingido por acusações de abuso sexual por sua filha adotiva Dylan, feita em 1992.

Embora os processos tenham sido arquivados na época após duas investigações em separado, Dylan, apoiada por sua mãe adotiva Mia Farrow e por seu irmão Ronan, renovou suas acusações no início de 2018.

Woody Allen sempre negou suas alegações.

Como sua imagem se deteriorou, vários atores e atrizes que trabalharam com Woody Allen se distanciaram publicamente e indicaram que não queriam mais interagir com ele.

No início de fevereiro, ele processou o grupo Amazon por quebra de contrato, culpando a gigante da Internet por encerrar seus acordos de produção.

A Amazon confirmou que rompeu seu compromisso de financiar quatro filmes no total de 68 milhões de dólares, justificando sua decisão pelas "repetidas acusações" contra o diretor e suas "declarações controversas".

O processo está em andamento e poderá ser julgado em 2020.

No festival internacional Séries Mania, em Lille, para apresentar uma série que será lançada em breve na Netflix, a atriz americana Uma Thurman falou de sua trajetória, de suas relações com Quentin Tarantino e sobre a ascensão dos papéis femininos em Hollywood.

"Aos 12 anos, eu disse a minha mãe que eu queria ser atriz, e ela me respondeu: sim, como todo mundo", lembrou a atriz em um evento lotado aberto ao público na terça-feira.

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"Não sei como isso foi possível. É, provavelmente, um dos milagres da minha vida. Aos 15 anos, meus pais me autorizaram a ficar independente. Aos 16, fui contratada para meu primeiro filme e nunca mais parei de trabalhar desde então", contou.

Suas modelos? Doris Day, Meryl Streep, Diane Keaton, ou Audrey Hepburn.

Desde a estreia com Terry Gilliam ("As aventuras do barão de Munchhausen"), sua carreira conta com vários filmes icônicos, como "Ligações perigosas", "Gattaca - experiência genética", "Ninfomaníaca, e algumas séries de televisão. Mas foi principalmente por seu papel no filme de Quentin Tarantino "Pulp Fiction - tempo de violência" e depois em "Kill Bill" que ela se tornou conhecida.

"Tenho muita sorte de ter vivido isso", reconhece a atriz, de 49 anos, que também falou das difíceis condições de filmagem de "Kill Bill".

No início de 2018, seu testemunho se somou ao de uma longa lista de vítimas do produtor Harvey Weinstein, e ela acusou Tarantino de tê-la posto em perigo quando ela foi vítima de um grave acidente de carro na produção de "Kill Bill 2".

Embora não tenha comentado este episódio, a lembrança de uma cena clássica, quando ela tenta escapar de um caixão aos socos, a faz reagir: "vivi 12 momentos de estresse pós-traumático só de olhar para isso".

- Melhores oportunidades -

"Todo mundo ama ouvir os diálogos de Quentin e ver sua criatividade, não tem realmente ninguém que não goste deles", comenta ela, vendo nele "um verdadeiro senso de humor, que não corresponde, com certeza, exatamente ao meu".

"Quando revejo 'Pulp Fiction', penso na minha filha, Maya. Ela tem 20 anos, um bebê...", continua a atriz, celebrando a "correção muito tardia" de Hollywood sobre os papéis femininos, que há alguns meses passou a criar mais heroínas fortes e independentes.

"Estou feliz de ver que há melhores oportunidades para as mulheres e que minha filha terá oportunidades diferentes", acrescenta a atriz, comemorando sua presença no elenco da terceira temporada da série de sucesso no Netflix "Stranger Things".

Uma considera que o movimento #MeToo (sem citá-lo de forma direta) "criou definitivamente um melhor ambiente de trabalho, mais seguro".

"Mas não é preciso que isso restrinja a criatividade das pessoas. É preciso que a gente possa se apaixonar pelo papel principal sem se deixar aprisionar", acrescentou.

Sem revelar sua preferência entre cinema e televisão, ou entre gêneros, Uma Thurman também apresentou a série "Chambers", um "drama familiar, um thriller sobrenatural, onde uma jovem vai viver estranhos efeitos após o transplante de um coração que pertencia a uma garota da idade dela".

"Sou a mãe em luto da jovem falecida. Há muita energia feminina nesta série" criada por Leah Rachel e que tem Uma como coprodutora.

"Sou um pouco a madrinha dela", concluiu a estrela dessa série selecionada para competição na Séries Mania, antes de seu lançamento na Netflix em 26 de abril.

"Ainda não encontramos uma alternativa para vender calcinhas sem mostrar uma bunda bonita", afirma Sarah Stagliano, uma das novas estilistas de lingerie francesa que buscam uma fórmula para vender roupas íntimas sensuais em tempos de #MeToo.

As calcinhas fio-dental e os sutiãs 'push-up' perdem força, o conforto se antepõe à sensualidade e inclusive a própria noção de sedução está sendo redefinida em função do bem-estar feminino em vez do desejo masculino. Assim, parte da publicidade da lingerie começa a mudar, afastando-se da imagem de "mulher objeto".

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Neste contexto, a última campanha da Aubade, marca que há 60 anos reivindica a "sedução", gerou a polêmica em dezembro devido à imagem gigante de nádegas perfeitas sob calcinhas com bordados que pendurou na fachada do centro comercial Galerie Lafayette, em Paris.

A vereadora comunista da capital Hélène Bidard, encarregada da igualdade de gênero, pediu a "retirada imediata desta campanha sexista", com uma mulher "sem rosto". Outros argumentaram que nos países onde estas imagens são proibidas, as mulheres são maltratadas.

"Não estávamos esperando, mas não nos afetou", comentou à AFP Martina Brown, diretora-geral delegada da Aubade, recordando que suas famosas campanhas "Lições de sedução" de 25 anos atrás "chocaram, mas não impediram que as mulheres comprassem os produtos".

"As mulheres adoram ver a delicadeza dos bordados, das rendas... Isto nos levou a aumentar o zoom e cortar a cabeça, é a única forma!".

Já faz 20 anos que alguns fabricantes "mostram mulheres normais e não modelos. É uma escolha deles. Nós preferimos fazer sonhar", disse Brown.

- Fim do Photoshop -

Henriette H, uma marca nova de lingerie conhecida graças ao Instagram, desfilará em 20 de janeiro em Paris junto com a Aubade e cerca de 15 outras marcas do setor, em um evento destinado a promover o "savoir faire" francês.

Sua criadora, Sarah Stagliano, de 36 anos, abriu uma loja em Paris chamada "casa aberta", onde as calcinhas e outras peças com motivos sedutores são provadas em cabines colocadas nas vitrines. A cliente escolhe se fecha a cortina ou não.

"Pode ser polêmico, mas se a mulher decide se exibir na vitrine, é livre para fazer isso", afirmou a criadora, defendendo que cada uma tem o direito de tomar suas próprias decisões, incluindo a de ser um "objeto sexual".

Jazzmine, na faixa dos 30 anos, é a imagem da marca há seis anos. Stagliano afirmou que continuará sendo "dentro de 10". Nas fotografias, se opõe a que retoquem seus seios, embora "estejam um pouco caídos" devido à lactância.

Mas os clichês sensuais prevalecem. "Para vender calcinhas, preciso de uma bunda porque continua sendo o lugar onde se colocam. Se vendesse creme de leite e mostrasse um par de nádegas, aí sim teria a impressão de utilizar" indevidamente a imagem da mulher, segundo Stagliano.

- Naturezas-mortas -

A empresa familiar Simone Pérèle apresenta há um ano suas peças como naturezas-mortas, colocadas sobre um sofá, ou revelando apenas uma alça de uma peça que está sendo usada por uma escritora ou uma atleta - uma forma de diminuir o complexo das mulheres e permitir que a lingerie seja mais acessível.

"As mulheres nos diziam que viam modelos retocadas com Photoshop... É preciso mudar o discurso", disse à AFP Stéphanie Pérèle, neta da fundadora da marca.

Renaud Cambuzat, fotógrafo de moda e diretor artístico do grupo Chantelle, que reúne várias marcas de lingerie, estimou que faltam propostas para se adequar a uma mulher moderna "complexa, multifacetada e que está sempre mudando".

Por um lado, estão os grandes desfiles americanos sensualizados como os da Victoria's Secret, mas o fato de que estes estejam perdendo audiência talvez demonstre que "é o fim de uma era", segundo Cambuzat.

Por outro, "está o outro extremo: como não queremos mais mulheres esqueléticas", recorremos aos tamanhos grandes "um pouco caricaturescos".

"Estamos avançando, mas ainda falta muito caminho a ser percorrido" para sair dos estereótipos, explicou.

Nesta época do ano, as estações de rádio americanas começam a tocar ininterruptamente músicas natalinas, mas uma canção tradicional gerou controvérsias neste ano, após o movimento #MeToo.

"Baby, It's Cold Outside", dueto escrito em 1944 e interpretado ao longo dos anos por diversos artistas, como Dolly Parton, Ray Charles e Lady Gaga, virou uma questão para as rádios por sua letra ser considerada ofensiva com as mulheres.

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Uma rádio no estado americano de Ohio foi a primeira a anunciar a retirada da música de sua lista no fim de semana passado, após receber queixas de ouvintes. Outras estações no país, e até no Canadá, seguiram seu exemplo.

A polêmica sobre esta canção existe há anos, mas, em 2018, com a força que ganhou o movimento #MeToo - surgido nos Estados Unidos há mais de um ano em resposta às acusações de abuso e assédio sexual por parte de homens poderosos - ela foi contestada mais duramente.

No dueto, um homem tenta convencer uma mulher a passar a noite com ele. Os versos incluem "Diga-me, o que há nesta bebida?", "Você é muito intrometido, sabia?" e "Eu deveria dizer que não, não, não, senhor".

O compositor da Broadway Frank Loesser escreveu a canção em 1944 e ganhou um Prêmio da Academia em 1950 de melhor canção original no filme "A filha de Netuno", cantada por Esther Williams e Ricardo Montalban.

"Me dou conta de que quando a música foi escrita, em 1944, era uma época diferente, mas agora, ao lê-la, parece muito manipuladora e incorreta", disse Glenn Anderson, um dos apresentadores da rádio de Ohio WDOK, que proibiu a música, em um comunicado.

"O mundo em que vivemos agora é extremamente sensível, e as pessoas se ofendem facilmente, mas em um mundo onde o #MeToo finalmente deu às mulheres a voz que elas merecem, a música não tem lugar", concluiu.

O líder de uma seita sul-coreana foi condenado nesta quinta-feira (22) a 15 anos de prisão acusado de estuprar oito mulheres, incluindo algumas que o consideravam Deus.

As vítimas do pastor Lee Jaerock "eram incapazes de opor resistência, pois estavam submetidas à autoridade religiosa absoluta do acusado", afirmou o juiz Chung Moon-sung no tribunal do distrito central de Seul. A devoção religiosa pode ser muito intensa na Coreia do Sul, onde 44% dos habitantes se declaram fiéis.

A maioria dos fiéis está vinculada a Igrejas reconhecidas, com frequência ricas e poderosas. Mas o país também possui muitas igrejas à margem, algumas delas envolvidas em casos de fraude, coação, "lavagem cerebral", manipulação dos frequentadores e outras práticas sectárias. Quase 60 pessoas afirmam ter essência divina no país, segundo especialistas.

Lee Jaerock fundou a igreja de Manmin, de inspiração protestante, em Guro, bairro de Seul, em 1982. A congregação afirma ter 130.000 fiéis atualmente, conta com uma grande sede, um auditório luxuoso e o site destaca o grande número de milagres em seu templo.

Após as revelações do movimento #MeToo, três fiéis denunciaram este ano o líder religioso, que as forçou a manter relações sexuais. "Não fui capaz de resistir a ele. Era mais que um rei. Ele era Deus", afirmou uma vítima, integrante da igreja desde a infância, em uma entrevista a um canal de TV.

O pastor disse a outra vítima que ela estava no paraíso e deveria ficar nua, como Adão e Eva no Jardim do Éden. "Chorei porque odiava fazer isto", declarou. Oito mulheres denunciaram o pastor e o tribunal o declarou culpado por dezenas de estupros durante um longo período.

"Em seus sermões, o acusado sugeriu, direta ou indiretamente, que era o espírito santo", destacou o juiz. E as vítimas pensavam que ele "era um ser divino com poderes divinos", completou.

Lee Jaerock, que nega as acusações, escutou o veredicto com os olhos fechados e não mostrou qualquer emoção diante de mais de 100 fiéis que assistiram o julgamento.

O advogado do pastor acusou as denunciantes de mentir como forma de vingança depois que foram expulsas por terem violado as regras da igreja.

Nos Estados Unidos, Argentina ou Irlanda, a túnica vermelha e a touca branca inspiradas nas vestimentas das aias da série distópica de Margaret Atwood, se tornaram um poderoso símbolo do #MeToo.

Embora o famoso romance "O Conto da Aia" da escritora canadense date de 1985, só agora alcançou a fama com a série de televisão "The handmaid's tale" da plataforma Hulu, cuja exibição começou em abril de 2017.

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Muito rapidamente, o conto dos Estados Unidos transformado em uma teocracia, com mulheres transformadas em escravas para procriar, tornou-se para os opositores de Trump uma parábola da tendência americana conservadora e do abuso sexual sofrido pelas mulheres.

O figurino, que lembra os hábitos das freiras, vestido pelas mulheres da fictícia República de Gileade, prevaleceu como um grito de guerra.

Manifestantes vestiram a combinação nos Estados Unidos durante a batalha contra a confirmação do juiz Brett Kavanaugh à Suprema Corte, acusado de uma tentativa de estupro quando adolescente. O mesmo fizeram outras mulheres em protestos pelo direito ao aborto na Argentina, Irlanda, Bélgica ou em manifestações anti-Trump na Polônia.

"Durante os dois anos e meio que trabalhei na série, não me dei conta do impacto", contou à AFP a figurinista Ane Crabtree, de 54 anos, de pai americano e mãe japonesa, durante uma recente passagem por Nova York.

- "Sintonia emocional" -

As filmagens foram intensas, as pausas escassas. E somente quando terminaram, Crabtree percebeu que seus figurinos haviam se tornado um manifesto.

"Mesmo hoje, eu não capto toda a amplitude do movimento", disse a estilista, que começou sua carreira na moda na década de 1990 e que deu a entrevista inteiramente vestida de preto.

"Mas, para mim, é uma excelente notícia, é muito gratificante emocionalmente (...) Como uma artista que tenta expressar o espírito dos tempos, certo? Você tenta entender como se comunicar e estar em sintonia emocional com as pessoas".

O guarda-roupa da série representa claramente um marco em sua carreira, mas sua criadora, duvidosa da qualidade de seu trabalho, passou muitas noites sem dormir.

"Eu tinha muito amor e respeito pela série, não queria falhar", disse ela.

Margaret Atwood vestiu de vermelho as mulheres escolhidas para serem regularmente estupradas, a fim de procriar, mas "eu queria fazer algo diferente, não um look com conotações históricas, em que ninguém se reconheceria em 2016", ressaltou Crabtree.

"Eu queria que as pessoas sentissem medo. Queria que fosse normal e ao mesmo tempo assustador. Às vezes as coisas mais terríveis são as coisas normais. Pois é aí que se diz 'Ah, meu Deus, isso poderia acontecer, poderia realmente acontecer comigo'", explica.

Ane Crabtree foi bem sucedida em sua aposta, mas não saiu ilesa da experiência.

"A série mexe com muitas coisas na minha vida pessoal, mas até este mês eu não percebia isso", disse a criadora.

Ela relatou que inseriu na série sua "raiva silenciosa" após a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2016, mas, acima de tudo, que a série trouxe de volta os abusos sexuais que sofreu quando era criança.

"Eu não me lembrava de nada até meus 28 anos e, mesmo depois disso, as lembranças permaneceram enterradas de maneiras diferentes", afirmou.

Por isso, apesar do enorme sucesso, decidiu abandonar seu trabalho antes das gravações da terceira temporada.

"A série é ao mesmo tempo dolorosa e magnífica... A história não é sobre mim e ainda assim tem um efeito terapêutico de longo prazo".

Atualmente dedicando-se a outros projetos, como um filme "feminista" da diretora Dee Rees, e outro com Anjelica Huston, Crabtree se alegra ao ver que seus figurinos "criaram vida própria".

A marca de lingerie Yandy, que passou a comercializar uma versão provocativa do traje, teve que retirá-lo do mercado no final de setembro, em razão da polêmica causada pelo seu significado original.

E até a estrela de reality show Kim Kardashian adaptou o figurino, muito mais sexy que a versão original.

Ane Crabtree ri dessas versões que distorcem o espírito de seu traje.

"As pessoas se vestem como querem. Eu sou um purista, todo artista quer ver as coisas como as concebeu. Mas tudo isso é apenas ego, talvez tenhamos que deixar as pessoas fazerem o que quiserem".

A percepção de que é muito perigoso ser um homem na era do #MeToo ganhou força durante o debate sobre a nomeação do novo juiz à Suprema Corte americana Brett Kavanaugh.

O que jogou mais lenha na fogueira foram uma tirada sarcástica do presidente Donald Trump e o tuíte de uma mãe aparentemente superprotetora que acabou viralizando na rede.

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No dia em que Kavanaugh prestou juramento como juiz da Suprema Corte, a mãe de Pieter Hanson postou uma mensagem na rede social comparando a situação do jurista - que negou vigorosamente as alegações de agressão sexual - aos desafios que seu filho de 32 anos enfrenta para encontrar uma namorada.

Usando hashtag #HimToo, ela disse que seu filho estava evitando sair com mulheres "devido ao clima atual de falsas acusações sexuais de feministas radicais com um machado pronto para ser usado".

Para enfatizar seu ponto de vista, ela postou uma foto do jovem de boa aparência e um sorriso angelical, posando em seu uniforme azul da Marinha.

O post imediatamente viralizou, inspirando centenas de memes zombeteiros, a maioria deles se divertindo com as preocupações aparentemente exageradas da mãe de Pieter Hanson.

Pieter respondeu rapidamente postando uma nova foto sua, com a mesma pose, só que usando camisetas e jeans.

"Às vezes as pessoas que amamos fazem coisas que nos machucam sem perceber", tuitou ele, respondendo gentilmente a sua mãe tão ansiosa. "Eu respeito o #BelieveWomen. Eu nunca vou apoiar o #HimToo".

Em uma série de aparições subsequentes na TV, Hanson, acompanhado por seu irmão Jon, abordou o assunto com bom humor.

O próprio presidente americano tratou do tema no início deste mês ante os repórteres na Casa Branca.

"É uma época muito assustadora para os rapazes nos Estados Unidos, onde você pode ser acusado de algo de que talvez não seja culpado", disse Trump.

Alguns dias depois, Trump debochou da acusadora de Kavanaugh, Christine Blasey Ford, durante um de seus comícios políticos.

Fingindo ser Blasey Ford, ele zombou de seus lapsos de memória sobre a alegada agressão sexual que data da década de 1980, provocando gargalhadas dos presentes.

- Homens, as vítimas -

A mãe de Pieter Hanson não inventou a hashtag #HimToo, mas o movimento ganhou fôlego durante o debate entre os apoiadores de Blasey Ford e aqueles que veem Kavanaugh como um exemplo para o caso de homens falsamente acusados de má conduta sexual.

"Os homens pensam que, se as mulheres ganham, os homens perdem", declarou à AFP Clara Wilkins, psicóloga social da Universidade de Washington em St. Louis, Missouri.

Ela disse que sua pesquisa mostra que "os homens acham que estão sendo alvo de preconceitos agora mais do que nunca".

"O fato de Trump dizer que o tal cara (Kavanaugh) foi injustamente acusado é aumentar a crença dos homens de que os homens são vitimizados", explicou Wilkins.

- Época assustadora -

"Os medos dos homens têm uma base racional", insiste, por sua vez, o advogado Andrew Miltenberg, que disse à AFP que defendeu centenas de jovens de alegações de abuso sexual, a maioria delas registradas em universidades.

"Na maioria dos casos - não todos - as mulheres estão buscando vingança de ex-namorados ou homens que brincaram com seus sentimentos", explicou, acrescentando que "é muito difícil para os rapazes terem uma oportunidade justa de serem ouvidos".

"É um momento muito assustador para os homens", prossegue Miltenberg. "Eu realmente não acredito que você possa ficar sozinho com uma jovem agora neste clima, numa época em que tais alegações podem destruir a vida e a carreira de um homem", disse ainda.

Um estudo do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, no entanto, descobriu que tais falsas acusações são raras - não envolvem mais do que 2 a 10% de todas as reclamações.

Além disso, apenas uma vítima de estupro em cada 10 é um homem, e calcula-se que 3% dos americanos tenham sido estuprados ou atacados sexualmente.

Os grupos de defeas dos direitos das vítimas, portanto, enfatizam que os americanos têm mais ou menos o mesmo risco de serem vítimas de agressão sexual do que serem falsamente acusados - o que significa que a hashtag #MeToo se aplicaria a muito mais do que o #HimToo.

Depois que Rashida Jones saiu da Toy Story 4 da Pixar em 2017, ela notou que o estúdio, após 25 anos nos negócios, não havia feito nenhum longa dirigido por uma mulher, considerando isso "uma cultura em que as mulheres e as pessoas de cor não têm uma igual voz criativa".

Então, quando o cofundador e CEO da Pixar, John Lasseter, pediu demissão, reconhecendo "erros" no seu comportamento com os empregados, ele foi mais do que outra vítima na longa lista de poderosos da indústria cinematográfica derrubados pelo movimento #MeToo. Ele era um símbolo de uma cultura de Hollywood que está morrendo - ou pelo menos sob ataque.

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"Essas empresas gigantes precisam de uma transformação", diz Jones. "Acho que as pessoas estão começando a reconhecer isso. Para mim é uma vitória."

Desde que as acusações de agressão sexual vieram à tona contra Harvey Weinstein, Hollywood tem feito um exame de consciência. O caso Weinstein, com os de Kevin Spacey, de Les Moonves da CBS, Roy Price da Amazon Studios e muitos outros, expuseram a dolorosa realidade para muitas mulheres em uma indústria em que a desigualdade de gênero é sistemática e generalizada.

O movimento #MeToo foi bem além do cinema, mas Hollywood continua sendo o marco zero em uma erupção cultural que começou há 12 meses com as revelações sobre Weinstein, publicadas pelo New York Times e The New Yorker. Em entrevistas com atrizes, cineastas, produtores e outros, a Associated Press buscou avaliar se existe uma diferença palpável em relação ao ano anterior. "Definitivamente, houve uma mudança sísmica", diz Carey Mulligan, a atriz britânica. "Se eu estiver andando pela rua e alguém disser ou fizer algo que esteja fora dos limites do adequado eu me sentirei muito mais fortalecida para dizer a eles f..., enquanto antes eu provavelmente não o faria."

Mulligan, que interpretou uma ativista dos direitos femininos no início do século 21 em As Sufragistas (2015), e tem-se manifestado sobre as disparidades salariais de Hollywood, diz que em cada trabalho que teve no último ano houve um código de conduta bem nítido no set.

Pesquisadores da Iniciativa de Inclusão Annenberg, da Universidade do Sul da Califórnia, ainda não encontraram diferença na representação feminina na tela, por trás das câmeras ou na sala dos conselhos. Novos dados após o fim do ano darão um retrato mais claro de 2018, mas os 20 anos anteriores mostraram uma mudança quase nula. Pelo menos de forma pontual, os estúdios e as empresas de produção estão agressivamente em busca de mais cineastas do sexo feminino. Salma Hayek disse que sua produtora tem tido dificuldades para contratar roteiristas e diretoras. Elas já estão todas ocupadas.

"Todo mundo está em busca de conteúdo feminino", diz Jones, cujo documentário Quincy foi lançado recentemente pela Netflix. "Estão começando a entender que o conteúdo criado e sob os cuidados de mulheres e pessoas de cor é altamente sub-representado no setor. "E todo mundo está tentando consertar isso."

Medir a mudança cultural em uma vasta indústria de US$ 50 bilhões é difícil. Tapetes vermelhos, festivais de cinema, prêmios têm um tom diferente no pós-Weinstein. Embora "o que você está usando" tenha retornado ao léxico do tapete vermelho um ano depois que as mulheres se vestiram de preto no Golden Globe, o protesto crepitou em muitos dos mais efusivos eventos do calendário cinematográfico, do Oscar ao Festival de Cannes. Mas há alguns limites ao que tais demonstrações podem conquistar.

"É ótimo quando você está no tapete vermelho e as pessoas falam sobre agressão sexual", diz a atriz Viola Davis. "Meu medo é que as pessoas sintam que o foco da agressão sexual esteja apenas com as atrizes de Hollywood e executivos de estúdio como Weinstein."

Ela teme que o movimento se torne limitado a "denunciar homens, levando-os aos tribunais da opinião pública e apenas destruindo suas carreiras. É muito maior que isso: uma em cada quatro mulheres - e há estatísticas que mencionam uma em três - que serão agredidas sexualmente até os 18 anos".

Como muitas revoluções anteriores, o #MeToo tem tentado codificar as mudanças permanentes. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas expulsou não só Weinstein, como Bill Cosby e Roman Polanski.

Ao mesmo tempo, proliferaram os adendos contratuais sobre inclusão, para ter diversidade em elencos e equipes. No mês passado, a Warner Bros. tornou-se o primeiro dos grandes estúdios a comprometer-se com isso. Em uma tentativa de abolir o "teste do sofá" cultura que Weinstein supostamente explorou, o Screen Actors Guild criou diretrizes instruindo produtores e executivos de abster-se de realizar reuniões profissionais em quartos de hotel e residências.

"As pessoas falam há décadas sobre o quão terrível é o ‘teste do sofá’. Mesmo com todos sabendo disso, ele continuava a ser realizado. Não havia nada de concreto, escrito e dizendo ser inaceitável", diz Gabriele Carteris, presidente da SAG-Federação Americana de Artistas de Rádio e TV. "Colocar isso em uma diretriz foi uma força para os membros porque todos nós passamos pela situação."

As diretrizes serão publicadas em breve, para estabelecer normas quanto a nudez no set, por exemplo. "Nosso trabalho é muito íntimo. É diferente de ser um advogado ou um médico ou um dentista", diz Carteris. "Mas há regras para os trabalhadores neste país, e é realmente importante definir que regras são essas."

Kirsten Schaffer, diretora executiva do grupo de defesa Women in Film, garante que o caminho para acabar com o assédio é a paridade. "Quanto mais mulheres em posições de liderança, menos provável o incidente de assédio. Temos muito trabalho à frente", diz Schaffer. "Estamos vivendo em uma sociedade sexista e racista há centenas de milhares de anos. Não vamos desfazer isso em um ano." (Tradução de Claudia Bozzo)

 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

O duas vezes ganhador do Oscar Sean Penn considerou que o movimento #MeToo, criado após os escândalos de agressão e abuso sexual em Hollywood, é uma campanha que serviu para "dividir homens e mulheres".

Em uma entrevista à rede de televisão NBC transmitida nesta segunda-feira, Penn disse que o debate era "muito preto no branco" e que em algumas ocasiões condenou-se muito rápido os acusados por abusos.

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"Não sabemos qual é a verdade em muito dos casos", disse o ator de 58 anos, que estava promovendo seu novo programa na plataforma Hulu, "The First". "O espírito de muito do que fez o movimento #MeToo é dividir homens e mulheres".

Sua coprotagonista, Natascha McElhone, havia dito que acreditava que os personagens femininos de "The First", uma série de ficção ambientada em um futuro próximo sobre uma primeira missão tripulada a Marte, foram influenciados pelo movimento #MeToo, mas Penn não concordou.

"Eu gostaria de pensar que nada disso foi influenciado pelo o que eles chamam de movimento #MeToo", afirmou Penn.

Os comentários do ator geraram uma onda de condenação imediata no Twitter, com muitos usuários fazendo referência aos supostos maus-tratos físicos que causou à cantora Madonna durante seu casamento. A diva do pop, entretanto, nega ter sido agredida.

Hollywood se prepara para cerimônia que celebra os melhores da televisão, na segunda-feira, nos prêmios Emmy.

Após um ano ausente, "Game of Thrones" parte com o maior número de indicações e o favoritismo para dominar a disputa. Já ganhou sete estatuetas em categorias técnicas.

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Mas, além dos vencedores, existem outros aspectos que dominarão a noite.

1. Como será manejado o #MeToo?

O movimento #MeToo começou pouco após o Emmy do ano passado, e há grandes chances de o tema ser abordado na cerimônia deste ano, sobretudo depois da renúncia do presidente da emissora CBS, Les Moonves, por uma onda de acusações sexuais.

Programas com tramas sobre mulheres como "The Handmaid's Tale", "The Marvelous Mrs Maisel" e "The Crown" estão entre as favoritas.

Embora este mês o Women's Media Center tenha redigido um relatório destacando que os homens levaram 70% das indicações sem ser de atuação, chegando a 94% nas de direção, este número é consideravelmente menor do que os 90% de 2017.

2. Que peso Trump terá na cerimônia?

Com as estrelas de "Saturday Night Live" Colin Jost e Michael Che conduzindo a cerimônia, e Alec Baldwin mais uma vez indicado por sua interpretação do presidente Donald Trump, é muito provável que o evento deste ano seja, novamente, muito político.

Jost disse à revista Vanity Fair que ele e Che esperavam fazer um show "menos político do que o normal", mas se as outras cerimônias servem de termômetro, será difícil evitar o tempero anti-Trump na capital do entretenimento, que também é um reduto democrata.

Nos prêmios Tony, que reconhecem os melhores do teatro, Robert De Niro recebeu uma grande ovação por usar um impropério para condenar Trump. No Oscar, em fevereiro, o diretor mexicano Guillermo del Toro fez um chamado aos imigrantes.

3. Será o Emmy da Netflix?

Em julho, a gigante da televisão por streaming finalmente se impôs no número de indicações contra a HBO (112 a 108). Mas será que isso se traduzirá necessariamente em mais troféus?

No ano passado, a HBO levou 29 Emmys e a Netflix, 20.

Depois dos Creative Arts Emmys - cerimônia anterior à festa principal que premia as categorias técnicas, realizada há alguns dias -, a HBO saiu com uma vantagem mínima: 17 a 16.

A HBO tem "Game of Thrones" e "Westworld" como seus principais competidores, enquanto a Netflix vai com "The Crown", "Stranger Things" e "GLOW".

4. A já terminada 'The Americans' levará algo?

Adorada pela crítica, "The Americans" - série sobre espiões soviéticos nos Estados Unidos durante a Guerra Fria - recebeu 18 indicações ao longo de suas seis temporadas.

Mas até agora levou apenas duas estatuetas, ambas para a atriz convidada Margo Martindale.

Os protagonistas da série, Keri Russell e Matthew Rhys, foram indicados este ano pela terceira vez. Será que algum deles, ou os dois, poderá comemorar o Emmy, como fez Jon Hamm no final de "Mad Men"?

As previsões do site especializado Gold Derby colocam Rhys como o favorito, enquanto Russell aparece somente no quarto lugar, atrás da vencedora do ano passado, Elisabeth Moss ("The Handmaid's Tale"), de Claire Foy ("The Crown") e Sandra Oh ("Killing Eve").

5. Outra grande noite para Donald Glover?

Na parte da comédia do Emmy, e com "Veep" fora da disputa, a série de Donald Glover "Atlanta" pode ser a grande premiada da noite.

No ano passado, Glover ganhou duas estatuetas por atuação e direção, após vencer dois Globos de Ouro igualmente por este show sobre a indústria do rap na capital da Geórgia.

Tem sido um ano de grandes sucessos para o talentoso artista de 34 anos, que canta com o pseudônimo de Childish Gambino e levou um Grammy em janeiro de melhor apresentação tradicional R&B.

Gambino "quebrou" a Internet na primavera (no hemisfério norte) com o lançamento de seu polêmico single "This is America", com um intenso videoclipe. Também atuou no último filme de "Guardiões da Galáxia" e "Han Solo: uma história Star Wars". E, na semana passada, lançou uma turnê pelos Estados Unidos.

Mais dois Emmys, incluindo o de melhor comédia, poderiam ser a cereja do bolo para o seu 2018.

Cerca de 200 mulheres e homens, entre eles estrelas de Hollywood, se reuniram neste sábado nos arredores da sede do Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF) para exigir igualdade salarial e respeito às mulheres que trabalham neste setor.

"As mulheres arrasam!", gritaram os manifestantes durante a marcha, em meio a crescentes chamados à indústria para que sejam realizadas mais histórias lideradas por mulheres e sejam destinados papéis substanciais para elas, na esteira do movimento #MeToo.

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Dirigindo-se à multidão, a atriz Geena Davis falou da necessidade de começar cedo a eliminar os preconceitos de gênero, por exemplo, assegurando-se que haja mais personagens femininos nos programas de televisão e filmes infantis.

"Por que ensinamos às crianças uma coisa da qual nos esforçamos tanto para nos desfazermos mais adiante? Por que estamos treinando-os para que tenham um preconceito de gênero inconsciente desde o início, quando sabemos que é tão difícil se desfazer dele depois?", questionou.

As atrizes Amanda Brugel, da série "Handmaid's Tale", e Mia Kirshner, cofundadora da campanha #AfterMeToo, também estiveram presentes, pedindo às pessoas da indústria do cinema que apoiem as vozes femininas.

"Trata-se de que todos se unam e reconheçam uma cultura que é pouco saudável e tóxica e que não ajuda ninguém", disse à AFP Callum Middleton, um garçom de Vancouver de 23 anos que participou da marcha.

Anteriormente, Cameron Bailey, chefe do Festival Internacional de Cinema de Toronto, reiterou o compromisso do TIFF com a igualdade de gênero na indústria.

A proporção de filmes de mulheres exibidos no TIFF este ano foi de 35%, um pouco mais que em 2017. Também houve 136 protagonistas mulheres.

O festival estabeleceu, ainda, uma linha direta para o pessoal, os voluntários, os convidados e os membros da audiência, e colocou cartazes destacando sua tolerância zero para o assédio ou o abuso.

A atriz italiana Asia Argento negou ter tido relações sexuais com o ator Jimmy Bennett quando ele era menor de idade, anunciou em um comunicado divulgado nesta terça-feira à imprensa e confirmado por seu agente à AFP.

"Desminto e rechaço o conteúdo do artigo publicado no New York Times que circula em vários meios internacionais (...) Jamais mantive relações sexuais com Bennett", declarou a atriz, de 42 anos, que reconheceu ter dado dinheiro ao jovem, mas não por uma relação sexual.

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Um concurso "Miss América" sem desfiles em traje de banho, leis mais duras para o assédio sexual, uma cifra recorde de mulheres que disputam eleições: oito meses depois do escândalo Weinstein, o movimento #MeToo é onipresente no debate americano.

No início, o #MeToo se traduziu na denúncia de uma quantidade impressionante de homens poderosos acusados de cometer abusos sexuais em todos os setores profissionais. Muitos deles viram suas carreiras desabarem da noite para o dia.

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Mas no início de janeiro, o nascimento do movimento Time's Up marcou uma nova etapa. As mulheres passaram à ação, apoiando-se umas nas outras para processar seus abusadores e ampliar seu combate a todo tipo de discriminação, como a enorme desigualdade salarial entre homens e mulheres.

Desde então, não passa um único dia sem que o espírito do #MeToo afete a atualidade dos Estados Unidos, empurrando todos os homens a uma verdadeira reflexão.

Esta semana, a poderosa liga de futebol americano, a NFL, recebeu chamados a terminar com a exploração das líderes de torcida, das dançarinas com pouca roupa contratadas para distrair os torcedores, quando surgiram informações de que estas recebem salários miseráveis e às vezes são tratadas como acompanhantes de luxo.

- "Misoginia institucionalizada" -

A jornalista Gretchen Carlson, que assumiu em janeiro a presidência do concurso "Miss América", anunciou que as candidatas já não desfilariam em traje de banho e que deixariam de ser julgadas pela sua aparência física.

O anúncio desfere um duro golpe na "misoginia institucionalizada" e é mais uma prova de que "o movimento #MeToo está se estendendo e influindo em uma série de discussões e práticas", afirmou Timothy McCarthy, historiador e professor da Escola de Governo Kennedy da Universidade de Harvard.

Bill Clinton viveu isso nesta semana, ao promover seu novo romance de suspense: o ex-presidente perdeu a calma quando um jornalista lhe pediu que analisasse seu affair de 1995-96 com a jovem estagiária Monica Lewinski à luz dos abusos de poder revelados pelo #MeToo.

Até mesmo a morte de Philip Roth no fim de maio desencadeou uma avalanche de comentários nas redes sociais sobre a suposta misoginia deste gigante da literatura americana.

O #MeToo e o Time's Up avançam também nos níveis político e legislativo.

Uma dezena de estados do país já reanalisaram seu arsenal legislativo sobre o assédio sexual. Alguns proibiram ou consideram proibir que as empresas imponham a seus empregados cláusulas de confidencialidade que impedem as vítimas de abusos sexuais de apresentar processos publicamente.

Duas senadoras, uma democrata e uma republicana, também apresentaram na terça-feira um projeto de lei federal sobre o assunto.

- A herança de Hillary -

As feministas esperam que o ímpeto do #MeToo permita em breve a adoção de uma emenda à Constituição americana que instituirá definitivamente a igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Agora só falta um estado votar para ratificar a emenda sobre igualdade de direitos dos anos 1920, que nunca reuniu a maioria suficiente de 38 estados para ser aprovada.

"Acredito que vamos ganhar e que teremos essa emenda nos próximos dois a três anos", disse à AFP Toni Van Pelt, presidente da poderosa Organização Nacional das Mulheres (NOW, sigla em inglês).

Segundo ela, o #MeToo "não está nem perto de parar", sobretudo com a quantidade recorde de mulheres concorrendo às eleições de meio mandato, em novembro de 2018.

Este empenho feminino em direção às urnas é, no entanto, em sua maioria patrimônio dos democratas, o que ilustra a polarização política do país, mas também as origens do #MeToo, aponta McCarthy.

Cerca de um ano antes do escândalo Weinstein, a derrota nas urnas de Hillary Clinton, a primeira mulher candidata de um grande partido à presidência americana, foi "o primeiro catalisador do movimento", afirma. Principalmente porque o vencedor, Donald Trump, foi filmado dizendo que poderia agarrar as mulheres "pela boceta" quando quisesse.

Sua derrota deu lugar à grande Marcha das Mulheres em Washington DC e por todo o país, uma das maiores manifestações da história americana, no dia seguinte da posse de Trump.

Mas o impacto do #MeToo está garantido a longo prazo?

O número crescente de mulheres em cargos eletivos "fará uma diferença enorme nas instâncias públicas e legislativas", assegura Toni Van Pelt.

O historiador McCarthy é mais circunspecto. "É uma luta de longo prazo", disse, que "se beneficia agora de um momento de eletrochoque (...), mas será necessário tempo para que este impulso se torne a norma, a lei, e seja politicamente institucionalizado".

Harvey Weinstein se declarou, nesta terça-feira (5), inocente das acusações de estupro e agressão sexual em um tribunal de Manhattan, no início de uma batalha judicial emblemática para o movimento #MeToo, que sonha em vê-lo atrás das grades.

"Inocente", sussurrou o ex-todo-poderoso produtor de Hollywood ante o juiz que leu a ata de acusação, em uma corte repleta de advogados e jornalistas. Várias vezes repetiu simplesmente "sim" enquanto o juiz recordou os detalhes de sua liberdade condicional.

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Foi o seu advogado Ben Brafman que mais falou na audiência. "Não importa quão repreensível seja o crime, presume-se que Weinstein é inocente. Também é repreensível acusá-lo falsamente de estupro", disse Brafman. "Vamos lutar contra isso na corte".

Weinstein foi acusado em 25 de maio de um crime por supostamente ter obrigado uma jovem a praticar nele sexo oral em 2004, nos escritórios do estúdio Miramax, e de outros dois crimes pelo suposto estupro de outra jovem em 2013. Poderia passar até 25 anos na prisão.

Apesar de apenas duas mulheres serem mencionadas na acusação no âmbito penal, mais de 100 afirmaram, desde outubro passado, terem sido assediadas sexualmente por Weinstein ao largo de várias décadas. Isso converteu o antes produtor cinema e televisão no catalisador do movimento #MeToo e num dos piores predadores sexuais da história recente dos Estados Unidos.

A Promotoria não divulgou a identidade das querelantes.

Segundo Brafman, o processo por estupro envolve uma mulher que durante uma década manteve uma relação consentida com Weinstein, mas esta informação não foi confirmada.

A acusação de sexo oral forçado foi feita por Lucia Evans, uma consultora de marketing que, em 2004, queria ser atriz e em outubro contou sua história à revista The New Yorker.

O seu relato é similar a muitos outros testemunhos de atrizes famosas como Ashley Judd e Gwyneth Paltrow, e principalmente de jovens desconhecidas que esperavam virar estrelas.

Evans relatou que Weinstein prometeu a ela um papel em seu programa de aspirantes a modelo "Project Runway", antes de ser obrigada a fazer sexo oral com ele. Depois o produtor continuou como se nada tivesse acontecido.

Weisntein deverá se apresentar novamente ante o tribunal em 20 de setembro.

- Solução imprevisível -

Já condenado pela opinião pública, será possível evitar que Weinstein, de 66 anos e pai de cinco filhos, vá para a prisão?

"É difícil prever o resultado", afirma Suzanne Goldberg, professora de Direito da Universidade de Columbia, "em parte porque "não houve muitos processos por agressões sexuais contra pessoas conhecidas, o que diz muito sobre o ceticismo que prevalece sobre as mulheres que acusam homens poderosos".

O movimento #MeToo quebrou o status quo favorável aos homens, como mostrou a recente condenação do comediante de televisão Bill Cosby por uma agressão sexual de 2004, em um segundo julgamento.

Mas o promotor deverá "provar 'para além de uma dúvida razoável' que Weinstein cometeu delitos em relação a essas duas mulheres em particular", ressalta.

No entanto, ninguém acredita que as acusações não darão em nada. O promotor de Manhattan, Cyrus Vance, tomou todas as precauções para verificar as provas e a credibilidade das querelantes, disseram vários advogados consultados pela AFP.

Para Michael Weinstein (sem parentesco com Harvey), advogado nova-iorquino e ex-procurador federal, Brafman tentará provar que "as relações foram consentidas" naquele momento, embora depois, com a chegada do #MeToo, as acusadoras "já não tenham essa lembrança".

- Número de mulheres -

Como foi para Cosby, a batalha principal gira em torno de outras potenciais vítimas de Weinstein, que a acusação pode chamar ao banco das testemunhas.

Algumas dessas testemunhas podem ser suficientes para convencer o júri de que o produtor tinha uma tendência sistemática de abusar de mulheres, destacou Michael Weinstein.

Bennett Gershman, professor de Direito da Universidade de Pace, está seguro de que o produtor, "o mais desonrado dos predadores sexuais", terminará nos próximos meses negociando um acordo para declarar-se culpado, evitando assim um julgamento e obtendo um redução de sua pena.

Por melhor que Brafman seja, "até mesmo o melhor advogado não pode fazer mágica", declarou Gershman. "Nenhum júri terá simpatia por Weinstein".

Ironicamente, o diretor americano Brian de Palma disse recentemente ao jornal francês Le Parisien que planeja abordar a história de Weinstein, como um filme de terror e com um protagonista similar.

Segundo informações da imprensa, Weinstein passou meses em tratamento por vício em sexo depois que sua esposa estilista, Georgina Chapman, o abandonou.

Ele está livre após pagar uma fiança de um milhão de dólares em espécie. Também deve usar um dispositivo de monitoramento com GPS e seus deslocamentos estão restritos aos estados de Nova York e Connecticut.

À espera da resolução da batalha judicial, o caso outorgará munições a mais de 10 mulheres que processam Weinstein na justiça civil.

Como ilustrou o caso O.J. Simpson, um veredicto de culpa é mais fácil de ser obtido no âmbito civil do que no penal. Por isso, mesmo que escape de uma pena maior de prisão, Weinstein parece condenado à desgraça.

Com "Oito Mulheres e um Segredo", Hollywood apresenta uma aventura feminina na era do movimento #MeToo, que rompe vários códigos de um gênero historicamente masculino.

"Ocean's 8" (título original) estreia na quinta-feira, mais de 10 anos depois de "Ocean's 13" (Treze Homens e um Novo Segredo), o terceiro capítulo das aventuras de Danny Ocean (George Clooney) e seu grupo, que roubam cassinos sem perder a elegância.

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Para revitalizar a saga, a Warner Bros obrigou Danny, falecido em circunstâncias desconhecidas, a dar lugar para sua irmã mais nova, Debbie (Sandra Bullock), que, assim como o irmão no início da trama, acaba de sair da prisão.

O cenário também é diferente: saem os cassinos e entra Nova York, em meio ao famoso baile de gala do Met.

O evento, organizado na vida real a cada mês de maio por Anna Wintour, editora da revista Vogue, é o momento escolhido por Debbie Ocean para roubar um colar Cartier de 150 milhões de dólares.

Para concretizar a façanha, ela reúne uma equipe de especialistas, todas mulheres. Algo raro, mas já observados em filmes como "Até as Últimas Consequências" (1996).

Mas "Ocean's 8" vai além e evita completamente a testosterona. O longa-metragem abre mão de elementos inerentes ao gênero.

O filme não tem armas, explosivos, violência física ou a encarnação de um rival, uma espécie de inimigo representado por Terry Benedict (Andy Garcia) em "Onze Homens e um Segredo. Ficam apenas o planejamento e a execução minuciosa do plano.

- "Muitas coisas mudaram" -

Enquanto as tentativas anteriores apresentavam mulheres inexperientes, em alguns casos quase caricaturas, "Ocean's 8" mostra Debbie e suas cúmplices como uma equipe que não perde em nada para o grupo de Danny Ocean.

"Já existiram versões masculinas, mas nunca houve este tipo de elenco de mulheres, que arrebentam", disse o diretor Gary Ross ("Jogos Vorazes").

Ross, que também é um dos roteiristas, explicou que foram necessários três ou quatro anos para que o projeto de um filme de alto orçamento completamente apoiado em atrizes fosse aprovado, inclusive com três atrizes vencedoras do Oscar e a cantora Rihanna no elenco.

"É interessante ver que há dois ou três anos, isto parecia impossível. Agora parece algo como: Bem, mas é claro", disse Cate Blanchett, que interpreta Lou, a pessoa de confiança de Debbie.

"Muitas coisas mudaram, acredito", completou.

O filme foi rodado antes do escândalo Harvey Weinstein, mas a questão obriga Hollywood a questionar suas práticas e o local ocupado pelas mulheres no cinema.

"O que importa, em particular para as jovens mulheres, é ver personagens femininos que não são arquétipos, rasos, e sim bem diferentes, complexos, com nuances", disse Olivia Milch, uma das roteiristas do filme.

Na era #MeToo nada pode ser considerado neutro, inclusive um filme que não tem mensagem política e que pretende sobretudo divertir.

"Você não pode subestimar o poder da representação visual", disse Anne Hathaway, que interpreta a estrela Daphne Kluger, que usa o famoso colar durante o baile do Met, no Museu Metropolitano de Nova York.

"E para uma menina de 8 anos nós não estamos dizendo para seguir uma carreira no crime, nós estamos falando vá fazer o que você deseja. E existe espaço para você".

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