Peru: protestos não dão trégua e resultaram em 45 mortes

O governo declarou na quinta-feira o estado de emergência em sete das 25 regiões do país - incluindo a capital e áreas do Norte e do Sul do país - até meados de fevereiro

sab, 21/01/2023 - 08:00
ERNESTO BENAVIDES Um manifestante cospe água na frente da polícia durante protesto contra o governo da presidente do Peru em Lima, em 19 de janeiro de 2023 ERNESTO BENAVIDES

Novos enfrentamentos em regiões do Norte e do Sul do Peru foram registrados, nesta sexta-feira (20), em meio a novas manifestações em Lima contra a presidente Dina Boluarte, que não dão trégua apesar das 45 mortes ocorridas desde o início da onda de protestos em dezembro.

Os choques se concentraram nas regiões de La Libertad (Norte), Arequipa e Puno (Sul), com bloqueios de estradas e batalhas campais entre os manifestantes, que atiravam pedras com estilingues, e a polícia, que respondia com gás lacrimogênio.

Na região de Puno, uma turba queimou a delegacia do distrito de Zepita e incendiou um posto alfandegário em Desguadero, na fronteira com a Bolívia, informou a televisão local.

Em Arequipa, a segunda maior cidade do país, dezenas de moradores tentaram, pelo segundo dia consecutivo, invadir a pista de pouso do aeroporto, que está fechado e protegido pelas forças de segurança desde a quinta-feira.

Já na capital Lima, milhares de manifestantes desfilaram pela tarde entoando palavras de ordem em alto e bom som: "Dina assassina!" e "Esta democracia não é uma democracia! Dina o povo lhe repudia!"

Com uma bandeira Yunguyo - povo das margens do lago Titicaca na fronteira com a Bolívia - nas costas e usando um chapéu de palha branco, Olga Mamani, de 50 anos, afirmava: "Queremos a renúncia de Dina. Se ela não renunciar, o povo não ficará em paz".

"A folha de coca nos dá força para esta luta que começamos, queremos que Dina renuncie e que se feche o Congresso [...] vamos ficar aqui até as últimas consequências", disse Antonio Huamán, um camponês de 45 anos que veio de Andahuaylas, epicentro das manifestações em dezembro.

O governo declarou na quinta-feira o estado de emergência em sete das 25 regiões do país - incluindo a capital e áreas do Norte e do Sul do país - até meados de fevereiro, habilitando assim a intervenção militar junto à polícia para controlar a ordem pública.

Os distúrbios já somam 45 mortes - 44 civis e um policial - desde o dia 7 de dezembro, após a destituição e detenção do presidente de esquerda e de origem indígena Pedro Castillo, acusado de tentar um golpe de Estado ao querer dissolver o Congresso - controlado pela direita - que estava a ponto de destitui-lo do poder por suspeita de corrupção.

Castillo foi substituído por Boluarte, sua vice-presidente, mas ela é vista como "traidora" pelos manifestantes.

- Turistas ilhados em Machu Picchu

Em Cusco, o serviço de trens à cidadela inca de Machu Picchu, a principal atração turística do país, continuou interrompido nesta sexta por causa dos protestos, enquanto o aeroporto de Cusco retomou suas operações.

A suspensão dos trens a Machu Picchu deixou pelos menos 300 turistas estrangeiros e locais ilhados na localidade de Aguas Calientes, que fica no sopé da montanha onde foi erguida a famosa cidadela inca.

"Não temos certeza de que um trem virá nos buscar. Como podem ver, todos os turistas aqui estão fazendo fila, recolhendo assinaturas e se registrando" para que possam ser evacuados, disse à AFP o chileno Alem López.

- 'A luta continua' -

Os organizadores garantem que as mobilizações não vão acabar até que haja a renúncia da presidenta Boluarte.

"A luta vai continuar em todas as regiões até conseguirmos a renúncia de Boluarte e os outros pontos da agenda, como a realização de eleições este ano e o referendo para a [Assembleia] Constituinte", declarou à AFP o secretário-geral da Confederação Geral de Trabalhadores do Peru (CGTP), Gerónimo López.

Na noite de ontem, Boluarte voltou a pedir calma em uma mensagem transmitida pela televisão estatal.

"Às irmãs e aos irmãos que sim querem trabalhar em paz, que sim querem levar renda para seus lares para sustentar suas famílias, lhes digo, e também aos que estão provocando estes atos de protesto, aos que se deslocaram das províncias para a capital, não vou me cansar de chamá-los para o bom diálogo", disse.

Mas suas palavras chegam a ouvidos surdos. "Este governo não nos representa, é ilegítimo para o povo aimara, por isso viemos aqui para fazer nossa voz de protesto ser ouvida", disse à AFP Ricardo Mamani, de 47 anos, que participou das marchas em Lima.

"Viajamos por 42 horas desde a região de Puno, estamos exigindo de uma vez por todas que esta senhora [Dina Boluarte] saia do caminho para que o povo esteja em paz", acrescentou.

Mamani, que estava vestido de preto em sinal de luto pelos mortos nas manifestações, instou as organizações de direitos humanos internacionais a intervir. "Não sentimos a presença do direito internacional. Não há quem nos defenda", clamou, indignado.

A crise também reflete a imensa lacuna que existe entre a capital e as províncias pobres que apoiam Castillo, cujos habitantes viam sua eleição como uma forma de revanche contra o poder de Lima.

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