Tópicos | Arnaldo Cezar Coelho

Anunciado como uma das atrações do amistoso entre Marrocos e Brasil no "Canal GB", empreitada de Galvão Bueno no YouTube, Arnaldo Cezar Coelho não vai mais participar da transmissão da partida da seleção, revivendo a parceria de anos com o amigo. Segundo o narrador, a Globo não gostou do acordo com a CBF para passar o jogo na plataforma de vídeos. Na TV aberta, a Band será a responsável pela transmissão. Arnaldo também é dono de uma afiliada da emissora.

"A Globo não gostou muito, mas o que eu posso fazer? E ainda tenho contrato com a Globo. Só fiquei chateado com a proibição do Arnaldo de participar comigo. O Arnaldo não tem mais contrato com a Globo desde 2018, mas ele tem uma televisão que é afiliada. No contrato lá de trás, não pode participar de nada sem aprovação e depois as coisas mudaram, mas o contrato dele tem 32 anos. Não sei o que houve. Ficaram chateados", disse Galvão Bueno, em entrevista ao Flow Podcast.

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"A primeira pessoa com quem eu falei quando surgiu isso foi o Arnaldo. As aspas dele foram as seguintes: "claro que pode, Galvão". Então, ele ficou feliz da vida, eu também... Eu lamento porque não era pra ele trabalhar comigo. Era um momento de juntar uma dupla que trabalhou 30 anos juntos. Nós somos amigos mesmo. O combinado era fazer o jogo no sábado, pular no avião e botar o Arnaldo pra colher na vinícola. Deixa pra lá, toca em frente", comentou Galvão.

Galvão Bueno, de 72 anos, ressaltou na entrevista que sua intenção nunca foi se aposentar após a Copa do Mundo do Catar e que apenas não iria mais narrar na Globo. Ele também reafirmou o carinho pela emissora carioca, na qual passou 41 anos de sua carreira, e relembrou momentos importantes no canal.

"Eu só tenho a agradecer a Globo, uma relação de confiança mutua e sabendo a importância que tinha no trabalho. Eu sempre tive a liberdade de falar o que queria. Eu fui a única pessoa até hoje a fazer comentários no Jornal Nacional ao vivo, não fazer reportagem. Então, sempre foi uma relação e confesso que algumas vezes falei com as palavras da família Marinho, porque era um editorial que precisava ser feito", explica.

A transmissão de Marrocos x Brasil será o pontapé inicial do "Canal GB" no YouTube. A transmissão do jogo da seleção vai contar com figuras marcantes na carreira do narrador, como o comentarista Walter Casagrande e o repórter Tino Marcos. O casal Sandro Meira Ricci e Fernanda Colombo, do quadro "Central do Apito", recentemente extinto pela Globo, também marcam presença.

Quem também irá participar será o influenciador Felipe Neto, sócio-fundador da Play 9, plataforma de criação de conteúdos para o YouTube que está por trás do "Canal GB". Galvão Bueno contou mais detalhes sobre o projeto e como surgiu a ideia de transmitir o jogo da seleção brasileira.

"Quando eu soube que a Globo não ia comprar o jogo da seleção por questão de horário (começa 19h de Brasília), me senti à vontade e aí é o maior barato porque não sei quando vai ser a outra. O canal não vai ser para transmissão, porque vai ter programa de automobilismo com meu filho Cacá Bueno, multicampeão, vou fazer programa sobre futebol...", disse.

Dono de uma das vozes mais marcantes da narração esportiva, Galvão Bueno ganhou notoriedade como narrador oficial da seleção brasileira na Rede Globo, participando da cobertura do tetracampeonato mundial, em 1994, e do penta, em 2002. Versátil, ficou conhecido por narrar as vitórias do Ayrton Senna na Fórmula 1 e, mais recentemente, foi a voz do ouro de Rebeca Andrade na Olimpíada de Tóquio.

Dono do apito na final da Copa do Mundo de 1982, entre Itália e Alemanha, na Espanha, Arnaldo Cezar Coelho marcou gerações com seu trabalho como comentarista de arbitragem na TV Globo, com parceria duradoura com Galvão Bueno e criação de bordões célebres. A regra é clara, mas as discussões sobre arbitragem sempre estão sobre as mesas (de bar, programas esportivos e das redações) mundo afora e, normalmente, não adianta recorrer a novos ângulos, tecnologias e imagens para determinar impedimentos ou gols, porque, no futebol, o trabalho de convencimento tem um grande rival: as paixões.

Longe das câmeras, Arnaldo continua sua vida como empresário, mas está ligado em lances duvidosos e é consultado por amigos para desvendar erros e acertos dos árbitros no futebol brasileiro. Comumente, usa de metáforas com questões cotidianas para exemplificar decisões que tomaria se ainda estivesse apitando.

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Com experiência na função, o ex-comentarista revelou ter sido convidado, após deixar a televisão, a assumir a chefia de arbitragem da CBF, cargo ocupado atualmente por Leonardo Gaciba. Ele também aponta problemas da arbitragem no País, do uso exagerado do VAR e nega que sinta falta do trabalho na TV. Confira sua entrevista no Estadão.

Como o senhor avalia o momento da arbitragem brasileira e a falta de um critério único entre os árbitros?

A arbitragem sempre teve problemas sérios. Aqui no Brasil, você ter um critério único é difícil, porque o País é muito grande. Um instrutor de arbitragem no Sul talvez dê instruções diferentes de um instrutor em Manaus. Ainda mais porque o brasileiro, de um modo geral, tem temperamentos diferentes. Com a criação do VAR (árbitro de imagens), praticamente muitas interpretações e conceitos foram alterados, e você passa a ver coisas que confundem muito o torcedor.

A falta de conhecimento das regras por parte dos jogadores, torcedores e da própria imprensa gera essas polêmicas recorrentes?

Se você não tiver educação esportiva, sim. Jogador brasileiro, infelizmente, está muito mal-acostumado. Reclamam até de lateral. Os árbitros estão omissos quanto a esse tipo de lance. A única coisa que o árbitro não pode perder é o respeito. E os árbitros perderam o respeito completamente, não estão se impondo. Esse é o maior defeito da arbitragem brasileira.

Os árbitros perderam autoridade agora que as principais decisões passam pela validação do árbitro de vídeo?

Eles (os árbitros) se submetem ao VAR. Para mim, o VAR só deveria entrar quando for um erro escandaloso. O VAR está fazendo mais média que o próprio juiz. Antigamente se falava 'esse árbitro é fazedor de média', agora quem faz média é o VAR. A arbitragem está muito difícil, porque a presença de mais um ou dois interpretando na sala do árbitro de vídeo deixou o jogo gelado, e o videoteipe não pensa, é a imagem fria do lance. A arbitragem é pensar.

O que acha do protocolo adotado na arbitragem de deixar um lance ajustado de impedimento seguir até sua conclusão para evitar que seja assinalado incorretamente e anule um gol?

A palavra mais feia que existe hoje na arbitragem chama-se protocolo. E tem a palavra "ajustado". Ajustado era ter um terno um pouco folgado e você pedia para ajustar. Agora, ajustado é quando o lance é muito na linha. Nessa semana, houve um lance dificílimo que culminou em gol, e o assistente levantou a bandeira depois da bola entrar. Por que levantar a bandeira? Para mostrar que está em dúvida? Não precisa, deixa lá embaixo, porque o gol vai ser examinado. Qual é a função do assistente agora? Marcar tiro de meta, lateral e olhe lá.

Como classifica o trabalho de Leonardo Gaciba à frente da comissão de arbitragem da CBF?

Eu acho que ele insiste em determinados árbitros que já deram no que tinham que dar. Estou vendo que estão surgindo árbitros novos, e ele está fazendo esse trabalho de renovação. Uma coisa que você tem de prestar atenção e evitar é escalar árbitro mineiro para apitar o jogo do Flamengo, quando se sabe que Atlético-MG e Flamengo estão disputando o título, por exemplo. Mas é muito difícil ser presidente de comissão de arbitragem.

Você aceitaria essa função?

Não, já fui convidado e não aceitei, porque tenho outros afazeres. Quem aceita tem de virar um profissional no negócio. Hoje, o Gaciba mora em um prédio ao lado da CBF. Tem um salário bom, mas trabalha feito um condenado. Eles me convidaram quando eu saí da Globo, mas neguei. Propuseram criar uma comissão, e eu seria uma espécie de presidente, mas não... Fui convidado pelo próprio presidente Rogério Caboclo, por intermédio do secretário-geral Walter Feldman, que me ligou duas vezes. Agradeci a lembrança, mas tenho outras coisas que cuidar.

Qual árbitro brasileiro tem se destacado para representar o País na Copa do Mundo de 2022?

Tem dois candidatos: Raphael Claus e Wilton Pereira Sampaio. Eles têm características diferentes. O Claus era mais proativo, agora tem estilo mais sóbrio. Já o Wilton apita com convicção lances mais polêmicos, mas aumentam as chances de errar. O nível da arbitragem, com o ingresso do VAR, se igualou bastante. Hoje, o juiz usa o VAR como uma bengala ou paraquedas. Antes a marcação do árbitro era soberana, agora deixou de ser a decisão final. Quando você tira esse poder do árbitro, permitindo que algo mude sua decisão, você está acabando com a autoridade, e os jogadores, inteligentemente, usam de subterfúgio.

Profissionalização é a solução para a arbitragem?

Não. O juiz já é profissional. Sabe onde mora o Anderson Daronco? Ele vive no interior do Rio Grande do Sul. Sabe o que acontece com ele? Acorda de madrugada, pega o carro, dirige até Porto Alegre, sobe no avião e vai apitar no Recife. Chega na véspera, sai no dia seguinte ao jogo e já viaja para outro lugar. Ele não tem tempo de voltar para casa e trabalhar com outra coisa. Tem árbitro que junta R$ 30 ou 40 mil por mês, não precisam de outra atividade. Sei que isso não acontece com todos, mas não dá para dizer que a arbitragem não é profissional.

Em 1982, você apitou a final da Copa na Espanha. Quatro anos depois, foi a vez de Romualdo Arppi Filho. Em 1990, o José Roberto Wright passou perto de ser o juiz da decisão. Nesses últimos anos, o Brasil perdeu protagonismo na arbitragem internacional?

Não sei dizer. O árbitro argentino (Nestor Pitana) apitou abertura e final da Copa do Mundo de 2018. Não sei se é desprestígio ao Brasil. Sinceramente, não sei explicar.

Sente falta de ser comentarista de arbitragem?

Não, nada. Outro dia estávamos conversando e disse que chegou a hora de dar adeus. Ainda mais agora com essa história de árbitro de vídeo. Parecia que eu estava adivinhando. Ainda bem que eu parei. A Copa do Mundo da Rússia (2018) foi decidida pelo VAR. A dinâmica do jogo foi afetada. Depois de qualquer lance mais duvidoso, o juiz já coloca a mão no ouvido para escutar a opinião do árbitro de vídeo. E, muitas vezes, usa o VAR para coagir o jogador.

O que achou dos protestos dos árbitros no último fim de semana, após a agressão que o juiz Rodrigo Crivellaro sofreu no Rio Grande do Sul, no jogo entre Guarani e São Paulo pela divisão de acesso?

Como a Federação Gaúcha aceita a inscrição desse jogador? Precisa ser analisado seu histórico, seus antecedentes... É a impunidade. Precisa haver uma preocupação por parte dos clubes e da Federação.

Como está a amizade com o Galvão Bueno? Recentemente, estiveram juntos nos Estados Unidos. O narrador dá algum indício de aposentadoria?

Nós dois e as famílias se dão muito bem. O Galvão acha que pode e deve ir até os Jogos Olímpicos de Paris-2024, quando completa 50 anos de profissão. É uma questão dele para ser avaliada junto à Globo.

Com tanto tempo na televisão deve ser complicado se desligar dos holofotes...

Essa é outra coisa com a qual temos de nos acostumar. De uma hora para outra, você sai do vídeo e já começa a reparar que o reconhecimento na rua muda. Mas quem fez alguma coisa de bem para o esporte sabe que será sempre reconhecido.

Árbitro de futebol durante 25 anos e comentarista de arbitragem por mais 29, Arnaldo Cezar Coelho está saindo de cena. Na terça-feira, o amistoso em que o Brasil venceu Camarões por 1 a 0 marcou a sua despedida das transmissões. Ainda restam compromissos em programas da Globo e do SporTV até 17 de dezembro para o ex-árbitro de 75 anos.

Depois disso, futebol, para ele, será apenas lazer, sem o compromisso de ver com lupa cada lance das partidas. "Chegou o momento de parar, me desligar um pouco", diz o personagem que ajudou a popularizar as análises dos homens do apito com o bordão "a regra é clara".

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Como foi acordar em seu primeiro dia como aposentado?

Ainda não foi o primeiro, porque tenho alguns programas para fazer em dezembro. Ontem (terça), foi a última transmissão. E outra: nunca vou me considerar um cara aposentado, porque tenho uma filiada da Globo (Arnaldo é proprietário da TV Rio Sul, que tem sede em Resende e filial em Angra dos Reis).

O que essencialmente mudará na sua rotina? Vai ver menos futebol a partir de agora?

É uma das coisas. Não vou ter obrigação de ver, vou assistir quando tiver tempo disponível e sem o olhar que tenho agora. Uma coisa é assistir esclarecendo lances, mesmo sem estar trabalhando no jogo. Porque nesses últimos quatro anos minha atividade foi também coordenar os comentaristas de arbitragem da Rede Globo. E, aí, o que acontecia? A gente tem um grupo de WhatsApp (formado por ex-árbitros que são comentaristas da emissora), e toda vez que aparece um lance mais complicado a gente discute.

Você sai de cena em um momento de grandes críticas à arbitragem brasileira, discussão sobre implementação de VAR... Acha que não tinha mais como contribuir em sua função?

Tem como contribuir, porque a minha função é muito mais didática. O motivo da saída é porque chegou o momento de parar, me desligar um pouco, me dedicar aos negócios, à família. Foram 29 anos na TV e nunca cheguei atrasado a um jogo. Na verdade, em 54 anos de campo, contando o período também apitando, só faltei uma vez, por causa de uma conjuntivite. E mesmo assim fiquei à beira do campo, revoltado, porque dava para ter apitado. É como um soldado sem farda, o cara que tem disciplina. Isso cansa. Não é um negócio perto de casa, é viagem o tempo todo, aeroporto. Faço ponte aérea desde 1964.

E uma outra função ainda dentro da arbitragem, como coordenador de arbitragem na CBF, algo do tipo. Você gostaria?

Não. Sabe por que eu nunca toparia? Porque esses caras hoje em dia são profissionais, trabalham de segunda à segunda. O (Wilson Luiz) Seneme (ex-árbitro, hoje presidente do Comitê de Arbitragem da Conmebol) foi convidado pela Conmebol e está morando em Assunção, no Paraguai, levou os filhos para estudar lá. O presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, o coronel Marcos Marinho, mora no Rio, precisa se dedicar o tempo todo. Se for para fazer isso, ficava onde eu estava. E mais: nessa função, eu teria de torcer pelos juízes. Rapaz, torcer por eles é muito difícil! Nem as famílias, às vezes, torcem!

Você diria que mudou as transmissões esportivas?

Não, o que aconteceu foi o seguinte: tinha no rádio comentarista famoso de arbitragem, mas não tinha na televisão. O que eu vi de oportunidade? Que a imagem fala mais alto do que qualquer coisa no futebol. A imagem não mente. E comecei a explorá-la para explicar didaticamente os lances. Agora, está surgindo uma nova figura, a do "teleárbitro". É um cara que fica em casa, nunca apitou, não está vendo a dificuldade do jogo e diz que foi pênalti. É igual ao árbitro de vídeo. Fica numa sala com ar-condicionado e cafezinho e quer interpretar. Não pode interpretar. Interpretação cabe ao árbitro, que está ali sentindo o jogo.

Como foi trabalhar por quase três décadas na TV Globo, e ao lado do Galvão Bueno?

No dia a dia, convivi com grandes estrelas quando apitava, e sempre procurei ter noção de que não era o dono do palco. E, no caso do Galvão, nunca quis ser mais do que ele, porque ele é realmente a voz do esporte brasileiro nas últimas décadas. A empatia que a gente tem é fruto dessa nossa cumplicidade. Muitas vezes, eu sento com o Galvão e falo: "Talvez você esteja exagerando, respira fundo". Isso é função do amigo.

Mas como eram os momentos de rusgas?

Os momentos difíceis foram quando surgiu "a regra é clara". Às vezes, ela pode ser injusta, mas é clara, está escrito. E ele discutia comigo. Não sei se ele provocava a discussão porque ela gera comentários ou se porque era convicção dele. Quando é jogo do Brasil... Rapaz, não tem maior torcedor do Brasil que o Galvão.

Acha que antigamente os árbitros tinham mais personalidade?

Tinham mais autoridade. O árbitro tinha o poder da decisão. Havia dois bandeirinhas que auxiliavam na marcação de impedimento e lateral. Mas ‘ai’ de um bandeirinha que marcasse falta! Porra, você tá apitando, viu que não foi falta, ai vai o bandeirinha e levanta?

Qual regra é a mais clara na sua vida?

Sem disciplina, não se chega a lugar nenhum. Se (o compromisso) está marcado para 9h e chega às 11h... Se falta no outro dia porque o cachorrinho ficou doente... "Ah, mas é um baita de um profissional". Não adianta, você não vai a lugar algum.

A transmissão do jogo Brasil x Camarões, nesta terça-feira (20), foi marcada por uma despedida na clássica equipe da Rede Globo. O comentarista de arbitragem Arnaldo Cezar Coelho anunciou que aquela seria a sua última participação na TV. Ao lado de Casagrande, Júnior e Galvão Bueno, Coelho foi elogiado pelos colegas de trabalho.

O ex-árbitro já havia dito, após a final da Copa do Mundo deste ano, que iria se aposentar. Arnaldo começou a trabalhar nas transmissões da Globo em 1989. O comentarista ficou conhecido pelo seu bordão: "a regra é clara" e pela clássica pergunta de Galvão Bueno: “Pode isso, Arnaldo?”.

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